As duas rodas transcenderam o direito fundamental do ir e vir. Muito mais do que a locomoção, o pedalar tem atraído praticantes que buscam mais qualidade de vida física e mental, diante de roteiros desafiantes e que circulam paisagens naturais de pura simbiose. Um dos esportes mais democráticos – já que não escolhe faixa etária, classe social, gênero, raça ou perfil físico – coleciona exemplos de superação e mudança radical no estilo de vida. Tudo, em prol da vida.
Marines Ronchi, a Mari, é um destes exemplos. Aos 56 anos, ela acaba de cravar no maps os 100 mil quilômetros rodados, após pouco mais de quinze anos pedalando por diversos lugares do globo. “Olha, são quinze anos pedalando. Eu tenho no meu currículo viagens internacionais que me marcaram muito”, disse a professora e bancária aposentada, que trocou há pouco tempo a terra natal, Jaraguá do Sul, por Balneário Piçarras.
Em seu currículo, roteiros específicos nos estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Rio Grande do Sul e Santa Catarina foram percorridos, assim como na América do Sul e Europa. “Por conta da bicicleta, eu conquistei inúmeras coisas na minha vida”, enfatizou Mari, que organiza um dos principais eventos regionais de ciclismo, o Pedal da Mari. O grupo foi idealizado há dez anos.
“É um evento reconhecido nacionalmente e que começou porque alguns amigos de Joinville me pediram para fazer um roteiro em Jaraguá do Sul. Eles já estavam cansados de repetir os mesmos roteiros. Me chamaram, eu criei a rota e eles começaram a chamar de Pedal da Mari. No meu primeiro Pedal vieram 26 pessoas, foi dia 28 de maio de 2011. Este ano, o Pedal da Mari completou 10 anos”, conta, orgulhosa.
Mari iniciou suas pedaladas aos 40 anos. Nunca mais parou. Pelo contrário, vem estimulando o crescimento da prática. Através das redes sociais, principalmente no Instragram (@marinesronchi), mantém postagens de seus roteiros e suas experiências. “Eu gosto das publicações e daquilo que eu escrevo, eu realmente acredito naquilo que estou falando – também me inspiro em outras pessoas que pedalam”, definiu ela, que atualmente tem mais de 22 mil seguidores.
O pedal é um esporte democrático. O também ciclista de finais de semana e educador físico, Bruno Mello, pontua que o ciclismo fortalece a musculatura, auxilia na saúde do coração, reduz o estresse, melhora a respiração e ajuda no equilíbrio mental. “Além de ser um exercício aeróbico (usa o oxigênio no processo de geração de energia nos músculos) e auxilia no fortalecimento muscular prevenindo lesões em outras atividades físicas, Além da liberação de endorfina (um dos hormônios relacionado ao bem-estar) melhoram o humor, stress, ansiedade”, enriquece.
Mas, como toda nova prática, exige cuidados iniciais – especialmente em um período pandêmico de estagnação física. “Começar com percursos mais curtos e aumentar gradativamente. Evite usar fone de ouvido (curta o som do ambiente, utilizar capacete e itens de segurança básicos. Lembrando que a bike tem tamanhos e números. Se for adquirir um novo equipamento procure comprar de acordo da sua altura. Ou ajustar a sua bike conforme suas necessidades (exemplo altura do selim, evitando lesão no joelho e coluna), finaliza.
ABRE ASPAS | Mari Ronchi, ciclista
JC – Como o mundo das bikes entrou em sua vida?
Mari – Eu participava, quinze anos atrás, de um grupo de caminhada que se chamava Clube do Andarilho, e eu organizava esse grupo promovendo as caminhadas. Na época, eu já tinha um amigo que tinha uma mountain bike e que um dia me convidou para dar uma pedalada com ele. Então, peguei uma bicicleta emprestada e a gente fez naquele dia acho que 20km em uma hora. Literalmente, foi amor à primeira pedalada. Eu fiquei apaixonada por aquilo. Em uma hora a gente pedalou 20km, enquanto na caminhada eu precisava de quatro horas. Foi assim que eu me apaixonei, me encantei e depois daí eu nunca mais parei. Logo em seguida em comprei a minha primeira bike e estou aí até hoje.
JC – Desde então, quais caminhos já desbravou?
Mari – Olha, são quinze anos pedalando. Eu tenho no meu currículo viagens internacionais que me marcaram muito. Foi em 2012, eu fiz a travessia da Cordilheira dos Andes, de Mendoza (Argentina) até Santiago (Chile). Foi uma experiencia realmente emocionante. Depois disso, eu fiz na Europa a Via Cláudia Augusta, que atravessa quatro países (Alemanha, Áustria, Suíça e Itália) – foram 700km. Essa viagem foi toda de alforge (mala especial), levando tudo o que precisava. Em 2014, eu fiz a Travessia da Floresta Negra, que foi entre a Alemanha e França. Em 2013, fiz a Patagônia, um trecho. Aqui no Brasil, eu fiz todos os roteiros que já existem em Santa Catarina (Araucárias, Vale Europeu, Costa Verde&Mar, Vale dos Encantos. Fiz um dos roteiros que considero um dos mais difíceis que já fiz, o Caminho da Fé (SP/MG). Foram cinco dias pedalando, com mais de 8 mil metros de altimetria acumulada. Foi uma coisa fantástica. Em 2018, também fiz um circuito maravilhoso no Deserto do Atacama (Chile).
JC – Que experiencias pessoais foi possível obter com essas aventuras? Quais mais lhe marcaram?
Mari – O fato de você viajar de bicicleta te traz uma experiência nos seguintes sentidos: quando você vai de carro, você vê a natureza. Quando você vai de bicicleta, você faz parte dela. É um aprendizado muito grande, de lugares, de pessoas, de convivência, de experiencias que você vivência, de alto-superação. Cruzar uma montanha que as vezes parece tão difícil, aguentar uma pedalada em dias de calor, ou em dias de frio, isso faz você se tornar mais forte e mais resiliente. Além de tudo isso, o que me marca muito no fato de eu pedalar é a quantidade de vidas que você impacta ao fazer um convite para pedalar e você sabe que transforma a vida de uma pessoa quando ela sobre em uma bicicleta. Quando ela descobre qual é o prazer de estar lá pedalando. Muda de vida, muda de hábitos, conhece novos amigos e lugar. A pessoa, literalmente, se reinventa. Eu sei, por mim, porque eu comecei a pedalar quando eu tinha mais de 40 anos de idade. Por conta da bicicleta, eu conquistei inúmeras coisas na minha vida.
JC – Você também lidera grupos de bike. Quais são?
Mari – Em Jaraguá do Sul, eu criei o Pedala Jaraguá e depois o Pedal da Mari – que acabou virando um grande movimento do qual muitas pessoas querem participar, querem fazer os roteiros que a gente lança. Eu acredito que nesses 10 anos do grupo, eu acredito que mais de 20 mil pessoas tenham passado pelo Pedal da Mari. Seis anos atrás, também formei o grupo feminino Girando com Elas. Primeiro era um evento, hoje era um grupo.
JC – O que busca estimular nas pessoas?
Mari – Na realidade é o que as pessoas querem quando vêm pedalar. A gente quer transformar a vida das pessoas. Queremos que elas tenham mais qualidade de vida, que elas entendam que a bicicleta é um meio de transporte completamente sustentável – que é possível, sim, usar a bicicleta no seu dia-a-dia. Eu aqui, em Balneário Piçarras, tenho o meu carro, mas eu praticamente faço tudo o que eu posso de bicicleta. Vou para o meu trabalho, para o mercado, uma rota diária de quase 50km. Quero mostrar que uma vida com a bicicleta é viável e é possível. Eu sempre falo: a bicicleta é agregadora. Traz coisas boas para sua vida e para as mulheres ela é libertadora, porque faz com que as mulheres saiam de sua zona de conforto e possam provar para elas mesmas do quanto são capazes. Os homens já pedalam há muito mais tempo, mas no universo feminino é uma coisa mais recente. A bicicleta tem esse poder de dar a liberdade, de levar para outros horizontes.
JC – Ingressou no mundo do ciclismo aos 40. Hoje, aos 56 anos, segue ativa e em crescente. Que mensagem busca transmitir às pessoas em cada um dos seus eventos, em cada postagem de alegria que faz durante seus pedais?
Mari – Eu sempre estou motivando e inspirando as pessoas. É uma coisa que eu faço por amor. É uma coisa que eu gosto. É natural para mim. A bicicleta é um estilo de vida. Quem gosta de pedalar, que se apaixona por esse ato, vai literalmente ter aquilo como um estilo de vida. Eu não penso em parar tão cedo. Eu me motivo com o pôr do sol, com o nascer do sol, com o bom dia que recebo pelo caminho, com alguém que grita ao longo do caminho que comprou uma bicicleta por minha causa, quando vejo alguém que começou de mansinho e está evoluindo, me motivo quando vejo as pessoas mudarem de vida por causa da bicicleta. Eu gosto das publicações e daquilo que eu escrevo, eu realmente acredito naquilo que estou falando – também me inspiro em outras pessoas que pedalam. Vejo que fazem e falam as coisas com o coração. Aquilo que eu posto, é aquilo que eu vivenciei.
JC – Quais dicas pode dar para quem está pensando em entrar para este mundo?
Mari – Para ingressar nesse mundo, chamamos de iniciantes – há também os intermediários, os avançados e por aí vai. Mas, todo mundo pode começar. Não é a bicicleta ou o equipamento que farão a diferença. O que faz toda a diferença é quando a pessoa tem coragem e tem vontade. Uma coisa não existe sem a outra. Investir em um equipamento vale a pena? Vale. Mas não é necessário. Começa com algo simples, há equipamentos de até R$ 1.000,00. Mas, precisa investir em equipamento de segurança: capacete, luva, óculos. Querendo ou não, a bicicleta sempre vai ser um esporte de risco. Se você está sinalizado, os riscos de evitar um acidente sempre vão ser maiores. E, em caso de alguma queda, você estará protegido. O meu recado mais importante é sempre se preocupar com a própria segurança quando você vai começar. Comece também por um roteiro mais leve e avance gradualmente.
JC – Algum motivo especial para escolher Balneário Piçarras como seu novo lar?
Mari – Eu sou oficialmente moradora de Balneário Piçarras desde o dia 1º de maio. Uma das razões que me levaram para cá foi que eu já tinha casa aqui e já estava veraneando há três anos. Como eu tinha me aposentado, eu vi aqui uma possibilidade de mudar de ares, de vida, de experimentar um ambiente novo, roteiros novos. Esse ar praiano é sempre agradável, algo que seduz a gente. Estou muito satisfeita com a qualidade de vida que encontrei aqui. Não abandonei Jaraguá do Sul. Vou para lá de 15 em 15 dias. Tenho muitas parceiras lá e todo mês eu tenho um evento feminino lá.
Foto por: ARQUIVO PESSOAL





