O homem por detrás dos misteriosos relógios de sol construídos na década de 80, em Balneário Piçarras, será revelado no livro do professor e historiador, Ricardo Machado – que será lançado no próximo dia 29 de abril. Intitulado, Félix, a obra de 408 páginas vai fundo na vida do intelectual nômade uruguaio, Félix Peyrallo Carbajal, que perambulou pelo estado catarinense em busca de conhecimento e construindo os quadrantes solares. Foram quase dez anos de pesquisa até o lançamento da obra.
“Félix viveu como um nômade percorrendo inúmeras cidades onde construiu quadrantes solares e proferiu conferências sobre literatura, ciência e filosofia. Viveu como um intelectual de destino incerto, sendo reconhecido em inúmeras partes do continente americano e europeu, falecendo no estado de Santa Catarina, no Brasil, em 2005”, detalhou Ricardo. Em Balneário Piçarras, o relógio de sol está ao lado da ponte sobre o Rio Piçarras. O quadrante construído no pátio da Escola Alexandre Guilherme Figueredo acabou demolido durante reforma, supostamente nos anos 2010.
As construções de Félix – que aprendeu a fazer em uma visita à Nicarágua – também estão nas cidades de Blumenau, Gaspar, Balneário Camboriú, Itajaí, Araranguá e Palhoça. Mas, segundo a apuração do professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que estudo Félix para seu doutorado em História, há relatos de que existam quase duzentos relógios de sol construídos por ele na América. Mas, a obra de Ricardo não gira exclusivamente em torno dessas construções, mas sim da filosofia de vida do homem que também se conectou com grandes nomes da arte para criar seu estilo.
“Félix Peyrallo fez do nomadismo seu agenciamento, buscando promover encontros através da literatura e do pensamento, percorrendo textos, autores e lugares. Por isso, optei por uma narrativa histórica de sua existência através desses encontros poéticos, carregados de incertezas e simulacros de histórias”, detalha o professor. As andanças de Félix e o conhecimento mundano foram cruciais para que ele nunca parasse de caminhar.
As pesquisas de Ricardo se encerraram em 2016, dando início à produção da obra. “Ele fez do jogo com a incerteza de seu passado uma forma de vida, por isso o nomadismo faz parte da estética de sua existência, já que o seu movimento foi permanente no mapa e na linguagem, nas formas de escrever e de existir. Félix Peyrallo viveu uma vida trágica, marcada pela incerteza e pela potência do falso, de modo que sua única identidade foi o próprio nomadismo”, reforça Ricardo.
A riqueza cultural do andarilho cultural é exemplificada com dados da pesquisa do escritor, que descobriu crônicas de Manuel Bandeira e Eduardo Galeano sobre Félix, uma relação íntima com a poeta cubana, Carilda Oliver Labra, e uma amizade com o escritor espanhol Pedro Garfias. O uruguaio também teria mencionado encontros com Frida Kahlo, Diego Rivera e Pablo Neruda. Mas, toda andança tem um fim. Félix faleceu em 3 de agosto de 2005, após passar seus últimos anos confinado na Casa São Simeão, em Blumenau. Seu corpo foi enterrado em Lages, onde descansa após suas andanças pelo Uruguai, Espanha, Estados Unidos, México, Cuba, Nicarágua e Brasil.
O LIVRO
O livro está sendo ofertado em pré-venda por R$ 69,90 (www.kickante.com.br/campanhas/livro-felix-ricardo-machado ou www.humanasebolivraria.com.br/eventos/558). Após o lançamento oficial, o preço passa para R$ 79,90. A obra leva o selo da Editora Humana, com o projeto gráfico e editoração de Aline Assumpção, a revisão de Joseana Stringini (português) e Ana Lilia Félix Pichardo (espanhol), sob a coordenação editorial de Fernando Boppré.
Félix Peyrallo Carbajal por Ricardo Machado
“Essa que para a maioria das pessoas parece ser uma pergunta simples de ser respondida, no caso dele se apresenta como uma questão muito complexa. Quando iniciei a pesquisa o que tinha era uma miríade de dúvidas, pois as histórias que me ouvia a respeito da vida de Félix eram tão surpreendentes que só poderiam ter sido retiradas de um roteiro de cinema.
Não dava, não era possível ter vivido com tamanha intensidade. Em uma vida não cabe tantos afetos, tanta loucura, tantas amizades intelectuais. São muitos territórios para serem ocupados, mesmo que provisoriamente. Era uma história tão fascinante que parecia impossível de ser escrita por um pesquisador em História. Ainda assim, resolvi me lançar em sua direção.
No caminho encontrei com fragmentos dessa vida surpreendente que foram abandonados. Nas ruas poeirentas por onde andei e nos arquivos mofados que vasculhei haviam tantos vestígios contraditórios ao ponto de me fazer acreditar que ele buscava borrar suas marcas. É como se Félix soubesse que um dia alguém como eu estaria em seu encalço. É como se a cada passo que eu desse em sua direção eu me transformasse em seu pior inimigo.
Um poeta? Um louco? Um intelectual? Um falsário? A trajetória de sua vida parece querer nos dizer, de uma maneira desesperada, melancólica que a poesia é tudo o que importa e ao mesmo tempo a poesia não tem nenhuma importância. Felix entregou sua vida plenamente à literatura ao ponto de levar ao limite a experiência moderna com a poesia: ao mesmo tempo o poeta é um herói e um tolo. Depois de anos juntando os cacos dessa história, me parece que a grande lição que ele nos deixou é justamente a respeito do lugar do intelectual, do artista em nosso mundo. Quando parti estava em busca de Félix, quando cheguei encontrei comigo mesmo. Demorei muito para entender isso, mas hoje entendo que para escrever tive que repensar sobre as possibilidades da escrita da História, pensar sobre o lugar do intelectual hoje.
Félix viveu na pele as mudanças estéticas do século XX. As marcas mais profundas foram deixadas pelas experiências das vanguardas artísticas dos anos 1920 e 1930, que o levou a fazer da linguagem uma experiência limite, permitindo uma singular forma de viver a vida como obra de arte. Por isso, a sua obra não pode ser dissociada de uma forma de existência através do automatismo psíquico, da experiência do choque, da adoração de uma mulher transformada em musa, da fragmentação e da montagem. Uma forma de defini-lo é dizer que se trata de uma tradução de uma vida surrealista latino-americana. Mas, ao mesmo tempo, a vida de Félix também ilustra a dissolução do lugar das vanguardas, por isso, seu destino foi cada vez mais melancólico. Nas últimas décadas de sua vida, sua experiência fala de sonhos que já não eram mais possíveis de serem sonhados.”
* Ricardo Machado é doutor em História pela UFSC e professor da UFFS.





