A Epagri e Universidade do Vale do Itajaí (Univali) são parcerias em um projeto de pesquisa que avalia as possibilidades de implantação de uma nova cadeia produtiva na maricultura do litoral catarinense: a criação de pepino-do-mar em cativeiro. A cidade de Penha é a primeira a passar pelos científicos estudos, situação que pode evidenciar a cidade dentro de um cenário de sustentabilidade ambiental, econômica e social.
A pesquisa foi dividida em duas fases, se iniciando pela análise de espécies. “Poucos estudos haviam sido feitos em Santa Catarina com os pepinos-do-mar. Inicialmente fizemos um levantamento em todo o litoral do Estado e em ilhas costeiras, para conhecer as espécies que ocorrem na região. Identificamos três espécies, sendo que uma destas ainda não tinha ocorrência registrada para o Sul do Brasil. Destas, selecionamos a mais abundante, denominada Holothuria grisea, para iniciar as pesquisas sobre o potencial para a aquicultura”, detalha o pesquisador do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Epagri/Cedap) e coordenador do projeto, Guilherme Rupp.
“É na Penha que existe um dos maiores parques de cultivo do Estado, e estamos verificando o potencial de cultivo integrado de moluscos com pepinos-do-mar”
GUILHERME RUPP
A cidade de Penha foi selecionada para abrigar a segunda fase do projeto justamente por possuir o maior parque marinho produtivo do Estado. “Fizemos um levantamento desde São Francisco do Sul até o Cabo de Santa Marta, para identificar as populações de pepinos-do-mar, mas os experimentos sobre cultivo estão sendo, no momento, realizados na Penha em parceria entre Epagri e Univali, pois é na Penha que existe um dos maiores parques de cultivo do Estado, e estamos verificando o potencial de cultivo integrado de moluscos com pepinos-do-mar” afirma Guilherme.
A segunda fase se iniciou em 2022 e segue até 2024, com financiamento da Fapesc. A proposta é desenvolver a tecnologia para cultivo integral do pepino-do-mar em Santa Catarina, usando uma das três espécies identificadas no litoral catarinense. O pesquisador revela que desenvolver tal tecnologia constitui um grande desafio, pois essa é uma nova espécie para a aquicultura. A pesquisa é formada por várias etapas, “cada uma com seus protocolos específicos, que precisam ser desenvolvidos”, descreve.

Os resultados obtidos desde 2019 são promissores, já que na avaliação do pesquisador da Epagri “temos espécies de valor comercial e já avançamos nas pesquisas de reprodução”. O estudo teve sucesso na indução da desova em laboratório e no cultivo das larvas até a fase de metamorfose. O pico de reprodução se dá nos meses mais quentes, por isso os experimentos de laboratório serão retomados ao final do ano.
Entre a primavera de 2022 e o verão de 2023 foram iniciados experimentos de cultivos integrados com ostras em dois sistemas, um suspenso e um de fundo de mar, na costa de Penha. “Ainda é cedo para afirmar se teremos sucesso na criação de uma tecnologia que permita o cultivo deste animal no litoral catarinense, mas os resultados iniciais são promissores”, pondera o coordenador.
Guilherme entende que Santa Catarina tem as condições propícias para se tornar o primeiro estado brasileiro a produzir pepinos-do-mar em escala comercial. “Temos uma cadeia produtiva de moluscos consolidada, existem áreas aquícolas demarcadas e o cultivo de pepino-do-mar pode minimizar o impacto ambiental da produção de ostras e mexilhões, quando cultivados em proximidade destes”, enumera o pesquisador.
Se os estudos prosseguirem com resultados positivos, a criação de pepinos-do-mar em cativeiro poderá trazer inúmeras vantagens para Santa Catarina. Além de ser uma alternativa de diversificação para a maricultura catarinense, a nova cadeia produtiva teria alto valor agregado e traria ainda mais equilíbrio ao ecossistema marinho do Estado.
PAPEL IMPORTANTE NO ECOSSISTEMA
No ecossistema marinho, o pepino-do-mar desempenha papel importante. Ele se alimenta de resíduos de outros organismos que se acumulam no fundo, e expele areia limpa e nutrientes inorgânicos após a digestão, no que pode ser considerado um trabalho de limpeza do mar e reciclagem de nutrientes. O animal também atua no equilíbrio do pH da água salgada, ajudando a combater um dos maiores riscos do acúmulo de CO² na atmosfera, que é a acidificação dos oceanos. Segundo Guilherme, a captura indiscriminada de pepinos-do-mar tem provocado redução nas populações. “A captura ilegal é um problema mundial, quando uma população declina, é difícil de ser recuperada”, descreve o pesquisador.
Por isso, ele teve o cuidado de iniciar seus trabalhos realizando um estudo populacional e reprodutivo dos pepinos-do-mar em Santa Catarina. A pesquisa, aplicada entre 2019 e 2022, identificou três espécies do animal habitando o litoral catarinense, uma delas que ainda não havia sido descrita para a região. “Todas as licenças ambientais necessárias foram obtidas para a realização deste trabalho”, pontua Guilherme.
Com esse estudo, os pesquisadores reuniram informações que poderão permitir um eventual repovoamento do animal, caso ele venha a correr risco de desaparecer no litoral do Estado. Segundo Guilherme, casos de pesca ilegal do pepino-do-mar são frequentes no Brasil e já foram registrados até em Santa Catarina.

O PEPINO-DO-MAR
O pepino-do-mar é da mesma família do ouriço e da estrela do mar. Apesar de ser pouco consumido no Brasil, é considerado uma iguaria em outros países, principalmente na Ásia. Devido à alta demanda, o preço de um quilo do animal pode variar entre US$300,00 e US$1mil no mercado exterior. Guilherme explica que esse interesse todo não se deve tanto ao seu sabor, que pode ser caracterizado como suave, mas por suas comprovadas propriedades nutracêuticas e farmacológicas, sendo muito utilizada na medicina tradicional oriental como anti-inflamatório e antirreumático. Também foram comprovadas em laboratório atividades antitumorais, antivirais e antibacterianas, além de ser rica em colágeno. Por estas características, é matéria-prima de interesse das indústrias farmacêutica e cosmética.
ABRE ASPAS | Guilherme Rupp, pesquisador do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Epagri/Cedap) e coordenador do projeto
JC – Epagri e Univali também são parceiros na pesquisa para produção da macroalga Kapaphycus alvarezii. Esse novo estudo evidência o potencial do litoral catarinense para além da pesca?
Guilherme: Exato, existe um grande potencial para a ampliação da maricultura, que no momento é apenas de moluscos (mexilhões, ostras e vieiras), para novas espécies, como as macroalgas e os pepinos-do-mar. É importante destacar, que por se tratarem de organismos recicladores de matéria orgânica, os pepinos podem ajudar a melhorar o ambiente, pois transformam o excesso de matéria orgânica eliminado pelos moluscos e outros organismos, que se acumula no fundo, em nutrientes inorgânicos que podem ser reaproveitados tanto pelas macroalgas, quando por microalgas. Desse modo eles são importantes elementos do ecossistema marinho, pois evitam a formação de zonas anóxicas no fundo, ajudam a elevar o pH da água evitando sua acidificação, e permitem a reciclagem de nutrientes. Esse é o chamado cultivo multitrófico integrado, que permite uma maior produtividade com menor impacto ao ambiente.
JC – O que se pode vislumbrar para o futuro da maricultura catarinense?
Guilherme: Vejo que a maricultura catarinense tem um grande potencial de desenvolvimento, como atividade com sustentabilidade ambiental, econômica e social. Santa Catarina é o maior produtor de moluscos do Brasil, com cerca de 95% da produção total do País e aproximadamente 450 empreendimentos de maricultura. Santa Catarina é um exemplo de desenvolvimento da maricultura, não apenas para outros estados, mas também para outros países da América Latina. Essa atividade gerou também, um turismo gastronômico, trazendo um elevado contingente de pessoas que aqui buscam consumir estas apreciadas iguarias de alta qualidade, que não são encontradas em outras partes. Entretanto, vejo também uma grande ameaça, que é a falta de saneamento básico. Temos visto uma grande expansão imobiliária e aumento da população em todos os municípios litorâneos, sem que isso seja acompanhado de adequado tratamento dos efluentes. Estes acabam drenando para ao mar, através de rios e córregos, poluindo as águas costeiras. Medidas urgentes de saneamento básico são necessárias para que a maricultura em Santa Catarina não seja ameaçada e continue sendo um exemplo para o País.





