A jornalista piçarrense, Daniela Kopsch, lançou na última terça-feira, 16, seu primeiro livro. “O Pior dia de todos” aborda em suas 264 páginas um romance criado a partir de uma história real – o Massacre de Realengo, como ficou conhecido o atentado a uma escola do subúrbio do Rio, em que um ex-aluno matou 12 estudantes, a maioria meninas, em abril de 2011. “Não é um livro sobre o massacre, mas sobre a amizade”, define a escritora, que mora na capital carioca desde 2010 e que busca chamar a atenção para a difícil experiência de crescer menina no Brasil
“Eu gostaria de chamar atenção para alguns temas. A violência que aconteceu no Massacre de Realengo foi algo inédito no Brasil. Oito anos se passaram e não refletimos direito sobre isso. Há algo por trás daquele crime que foi esquecido. Foi um feminicídio. Das 12 crianças mortas, dez eram meninas. Das 12 crianças feridas, dez eram meninas. No total, o assassino atirou em vinte meninas. Ele entrou na escola para matar meninas – e disse isso”, detalhou Daniela, jornalista que cobriu profissionalmente o trágico episódio.
A história gira em torno das personagens Malu e Natália, primas que vivem alimentadas por sonhos em um mundo cercado pelo eminente risco da perda mais preciosa: a vida. “Ninguém prestou atenção. A violência que afeta as mulheres é um risco real e começa já na infância. Outra coisa importante que as personagens do livro mostram é como nós lidamos com isso e como somos fortes em sobreviver e resistir”, enriqueceu a escritora, citando ainda que a tragédia do Realengo é a maior já ocorrida numa escola brasileira.
“Quando vivíamos uma euforia econômica, o acesso à educação começava a transformar uma geração e estávamos todos otimistas. Oito anos depois, mudou o país, mudamos nós – e este livro, como só as narrativas mais originais conseguem, pretende transformar um relato em material sólido, capaz de perdurar por mais tempo”, acrescentou. Daniela levou dois anos para escrever a obra. “Era uma história que estava na minha cabeça há muitos anos, desde que estive em Realengo pela primeira vez”, recordou.
Com estrutura aparentemente simples, a obra apresenta um mundo difuso de preconceitos, desejos e limitações de forma crua e clara. “Quando comecei a pensar no livro, não sabia ainda se escreveria ficção ou não ficção. Optei pela literatura porque eu queria me aprofundar em personagens de um jeito só a ficção consegue. Queria misturar as histórias de Piçarras, das personagens que conheci na infância e adolescência na Escola Alexandre Guilherme Figueredo (onde estudamos, eu e você) com a vida daquelas meninas que conheci no subúrbio do Rio. Apesar da distância, há algo de universal na experiência de crescer menina, foi o que eu quis retratar no livro”, frisou Daniela, nascida em 1987 e criada no litoral piçarrense.
Jornalista por formação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba e especializada em Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Daniela observa que cobrir a tragédia e escrever o livro também a mudou pessoalmente. “No jornalismo estamos sempre ouvindo o outro. Na literatura, nós também nos voltamos para dentro, para a própria história. Eu acabei me identificando com as personagens, vi que estava contando uma história sobre meninas de Realengo que, em muitos aspectos, também é a minha”, analisou.
O livro está à venda nas livrarias, na Amazon e “também vou mandar alguns para vender no Ateliê da minha mãe”, encerrou Daniela, que é filha da artista local, Cláudia Kopsch. O Ateliê de Cláudia fica na Avenida Nereu Ramos, 557 ao lado da Igreja Matriz. O preço da obra é de R$ 42,00. Atualmente a escritora trabalha como repórter e redatora para veículos como Canal Futura, Editora Abril e HuffPost.





