O delegado de Polícia, Wilson Masson (foto), indiciou Adriana Moreira por denunciação caluniosa no inquérito que investigava o envolvimento do vice-prefeito de Balneário Piçarras, Flávio Tironi (PSD), em um suposto caso de aborto não consentido. No inquérito investigatório remetido ao Ministério Público do Estado (MP/SC), o delegado concluiu que o filho de Adriana faleceu de forma prematura e por complicações da gestação.
Instaurado no dia 8 de agosto, o inquérito policial ouviu as principais pessoas envolvidas, resgatou os prontuários médicos de atendimento e também se baseou em um lado do Instituto Geral de Perícias (IGP) para chegar a tal conclusão. Segundo Masson, há ainda marcas de adulteração nos documentos entregues por Adriana e também a utilização de laudos médicos de outra paciente – que teria perdido o filho por decorrência de um aborto.
“Tudo isso para tentar iludir o trabalho da Polícia”, disse o delegado. O caso ganhou repercussão pública durante a última semana, quando um dossiê do caso foi distribuído pela cidade. Além de documentos, há também um áudio de uma conversa entre Adriana e Tironi – em que o vice-prefeito sugere a Adriana tomar um remédio abortivo. “Por mais que exista esse áudio, atos preparatórios não configuram o crime. Não há como provar que ele (Tironi) tenha dado o remédio abortivo para ela (Adriana)”, explicou.
“Se fosse um caso de aborto, o Hospital iria deixar a questão bem clara. É uma obrigação deles”, acrescentou Massom. Tironi e Adriana tiveram um relacionamento extraconjugal entre alguns meses de 2013 e 2014. Adriana – que agora é candidata a vereadora pelo Solidariedade – acabou engravidando e decidiu manter a gestação. Na denúncia feita por Adriana à Polícia, com três meses de gestação, Tironi teria colocado a pílula abortiva em um copo de cerveja, que ela bebia.
Segundo as investigações, no sétimo mês de gravidez Adriana teve um desconforto e foi levada ao Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) de Balneário Piçarras. De lá, foi transferida ao Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí. Ficou internada por 20 dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), com o falecimento da criança em seguida. Ainda em 2014, Adriana chegou a denunciar o caso na Delegacia. “Na época abrimos o inquérito e citamos ela, mas ela nunca foi localizada”, lembrou o delegado.
O crime de denunciação caluniosa (dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, instauração de investigação administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando-lhe crime de que o sabe inocente) é punido com até oito anos de prisão.
MP trata o assunto com muita cautela
O inquérito policial está nas mãos do promotor Luís Felipe de Oliveira Czesnat. Em entrevista ao Jornal do Comércio, ele revelou que a questão não é tão simples como aponta o inquérito policial e que o assunto “é muito delicado devido a uma vida ter sido ceifada”. Ele informou que ainda não sabe se aceitará o inquérito e que, provavelmente, vai colher novas provas sobre o assunto ou ainda remeter o caso ao Ministério Público da Comarca de Itajaí.
A primeira investida da Promotoria deve recair sobre o Hospital Marieta Konder Bornhausen. Isso porque, um dos laudos apresentados pela investigada confirma o aborto, contudo, tal laudo seria de uma paciente com nome muito parecido ao de Adriana Moreira. O MP quer saber se o Hospital incluiu o laudo por engano ou se foi incluso de forma a ludibriar a Polícia. A documentação que cerca o caso também é bastante contraditória, aponta o MP.
“Talvez ela (Adriana) também seja vítima de um equívoco. É possível que ela tenha sido levada a acreditar que sofreu um aborto por conta deste laudo”, analisou Luiz Felipe. Caso o aborto seja realmente confirmado nesta nova análise do Ministério Público, a investigação mudará de jurisdição e o caso passará para a Comarca de Itajaí – já que o caso aconteceu na cidade portuária.
Ciente de que o assunto pode ter ganho maior repercussão por conta de um processo eleitoral que ambos encaram, o promotor ressalta que esse não é o foco da questão. Para ele, é importante que as suspeitas de um aborto estejam totalmente esclarecidas antes do indiciamento formal de uma pessoa. O caso ganhou vertentes eleitorais e penais e Adriana foi intimada pelo MP a prestar esclarecimentos no último dia 28, mas não compareceu.
ENTREGA DE DOSSIÊ
Na madrugada do dia 23, um dossiê com uma série de informações envolvendo o nome de Adriana e Tironi no caso foi entregue em diversos pontos da cidade. De forma anônima, o documento acabou ganhando grande repercussão na cidade. “Já temos alguns suspeitos de terem entregue esse material e vamos chamá-los dentro de alguns dias”, encerrou
Adriana afirma que tem provas
O Jornal do Comércio tentou contato com Adriana pelo telefone e também pela rede social, mas não obteve sucesso. Em um vídeo postado na rede social, dia 25, Adriana deu uma explicação sobre o caso. Disse que perdeu o celular e todos os arquivos da investigação estavam nele. Sobre o aborto, Adriana categorizou ter toda a certeza e “provas, sim, tenho todas as provas de que ele (Tironi) matou o meu filho e matou outra criança”, desabafou, citando ainda que está sendo perseguida, ameaçada e que pretendia seguir sozinha com a gravidez. Ela assinalou ainda que lutará por seus direitos. O vídeo já foi visto por 1.500 pessoas e segue disponível na rede.
Flávio Tironi disse ao JC que não irá se manifestar sobre o assunto neste momento.
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