No último domingo, 5, os estudantes que fizeram a primeira a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) tiveram que discorrer sobre a questão “Os desafios da formação educacional dos surdos no Brasil”. O tema chocou e surpreendeu professores e alunos em todo o país.
O estudante piçarrense Eduardo Figueredo Cabral, de 17 anos, que faz o 3º ano do Ensino Médio no Senai em Itajaí, foi um dos que fez a prova do Enem. “Mesmo com a surpresa, pra mim o tema foi fácil de escrever porque na minha escola recebemos uma palestra sobre o tema, sobre pessoas surdas, e isso facilitou muito minha forma de fazer a redação”, destacou.
De acordo com ele, a escola onde estuda tem dois alunos surdos. “A palestra foi com o objetivo de ter uma interação entre nós e eles, com intérpretes contando a história dos surdos e eles contando as histórias deles”, destacou o estudante. Diferente de Eduardo, a maioria dos estudantes teve dificuldade de explicar e falar sobre o tema.
E se, como eles, você acha que discutir sobre a educação de surdos é tema complexo, imagina para quem precisa conviver e educar pessoas com surdocegueira. Para discutir sobre esse desafio, educadores, familiares e deputados federais da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência se reuniram no começo de agosto em audiências públicas para discutir a criação do Dia Nacional da Pessoa com Surdocegueira.
Segundo a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), a intenção é que o dia 18 de novembro seja o dia para se conscientizar sobre a importância da inclusão e os desafios da formação educacional dessas pessoas. Segundo a instituição, há aproximadamente 40 mil pessoas no Brasil com surdocegueira, o que se caracteriza pela perda total ou parcial da audição e da visão.
A professora Laura Lebre Monteiro Anccilotto, paulista, mas moradora de Barra Velha, sabe bem os desafios que são enfrentados pela pessoa com surdocegueira no país e no mundo. Laura é formada em Pedagogia com Habilitação em Deficiência Visual e tem especialização em múltipla deficiência sensorial e surdocegueira. Iniciou o trabalho com essas pessoas surdocegas em 1993 em São Paulo. Entre 1995 e 1996 fez a especialização na Perkins School for the Blind, nos EUA e em 1997 foi para a República Tcheca para continuar a se especializar na área de surdocegueira no Institute for the Deaf – Beroun. Atualmente, é contratada da Prefeitura de Balneário Piçarras e cedida à Apae como coordenadora pedagógica.
Na instituição local, Laura tem o desafio de orientar professores a trabalhar com as múltiplas deficiências e faz orientação sobre mobilidade e comunicação aos alunos, principalmente os cegos ou com baixa visão. “Um trabalho muito importante e que precisa ser divulgado e valorizado. São poucas as pessoas com esse conhecimento e temos que aproveitar ao máximo essas orientações da Laura para ajudar nossa instituição e os nossos alunos”, destacou a presidente da Apae, Eunice de Almeida.
Educação da pessoa com surdocegueira vem evoluindo
Segundo Laura, a educação da pessoa com surdocegueira já evoluiu muito. Na década de 60, o professor holandês Jan van Dijk iniciou os estudos sobre a surdocegueira e sobre a comunicação para estas pessoas e se tornou um “papa” do assunto. “No Brasil, foi também por volta de 1960 que a educação de surdocegos ganhou mais atenção, principalmente quando a escritora, conferencista e ativista social americana Helen Keller veio ao país para visitar uma escola para pessoas surdas em São Paulo e impressionou alunos e professores por sua desenvoltura e comunicação”, lembra a professora Laura.
Helen foi a primeira pessoa com surdacegueira a conquistar um bacharelado e é referência no mundo todo. “Hoje já temos o Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e Múltiplo Deficiente Sensorial, no qual faço parte, que é um grupo que já está com representantes em boa parte dos estados do Brasil discutindo a educação da pessoa com surdocegueira e tentando ampliar o debate da sociedade e a atuação dos governos nas políticas públicas para as pessoas com surdocegueira,” destaca Laura.
De acordo com a professora, hoje o maior desafio é diminuir a falta de conhecimento da sociedade em geral sobre o que é a surdocegueira e diminuir o isolamento da pessoa com surdocegueira por falta de comunicação. “É importante lembrar que a surdocegueira existe por vários motivos, entre os principais são pela síndrome de Usher (doença genética que causa surdez e cegueira) e a síndrome da rubéola congênita. Por isso o conhecimento e detecção precoce dessas doenças pode ajudar a melhorar a qualidade de vida futura dessas pessoas. Temos que conhecer mais para ajudar mais”, conclui Laura.
ENTENDA MAIS
A data de 18 de novembro foi escolhida em homenagem a Nice Tonhozi de Saraiva (que faz aniversário nesta data), pioneira na educação direcionada aos surdocegos na América Latina.
O surdocegueira é uma deficiência caracterizada pela ausência da visão e da audição de forma simultânea e em graus diferentes. Não são duas deficiências juntas, mas sim uma deficiência única, que precisa ser tratada de forma específica.
De origem genética, a síndrome de Usher tem graus variáveis se associando a surdez, presente já no nascimento, com a perda gradual da visão, que se inicia na infância ou na adolescência. Já a síndrome da rubéola congênita ocorre quando o vírus da rubéola na mãe afeta o bebê em desenvolvimento, geralmente nos primeiros três meses de gestação. Os sintomas incluem visão com aspecto embaçado ou esbranquiçado devido a catarata, além de surdez, defeitos cardíacos e atraso no desenvolvimento.
Existem várias formas de comunicação utilizadas pelos surdocegos que dão mais qualidade de vida a eles. As principais incluem o braille, escrita “em fôrma” na palma da mão, libras tátil ou em campo reduzido, e o tadoma, na qual a pessoa coloca o polegar na boca do falante e os dedos ao longo do queixo.





