17.3 C
Piçarras
quarta-feira 17 de julho de 2024


Luto: Balneário Piçarras perde o centenário pescador Seu Abrão

Ouça a Matéria

Faleceu por volta das 2h desta madrugada, segunda-feira, 3 de junho de 2024, o nativo morador de Balneário Piçarras, Abrão Laurentino das Neves. Ele, que completou cem anos no último dia 13 de dezembro, estava internado no Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, para o tratamento de dengue. Seu quadro de saúde se agravou com uma pneumonia e ele não resistiu.

O velório de Seu Abrão se inicia às 9h. Ele acontece em sua residência na Rua Alexandre Guilherme Figueredo, no número 288.

Seu Abrão estava internado em Itajaí – Foto, Felipe Franco / JC

Nascido em Joinville em 1923, veio para cá ainda menino, aos sete anos. “Me criei na Penha. Morei no Loteamento do Fleith, que naquele tempo era do Figueiredo. Dali fomos para a Barra, deu uma enchente e carregou a casinha que tinha. Meu pai veio e comprou na frente do Neneco, até a praia. Depois, trocou por esse aqui, que ia até o rio – mas, antes dele morrer, ele vendeu o pasto. Assim eu fui me criando”, relatou ele ao Jornal do Comércio, em entrevista realizada em dezembro passado.

Seu Abrão construiu sua história de vida através da pesca artesanal, profissão que iniciou aos 8 anos de idade. “Eu comecei na pesca aos 8 anos. Eu ia com os meus irmãos pescar e daí nunca mais parei. A gente ia pelo rio, porque era mais perto. Ela já fica atracada lá. Tudo canoa à remo. Não tinha motor. Canoas de três palmo de boca. Pegava vento, pegava trovoada. Era a pescaria de espinhel”, disse.

Em 1948, aos 25 anos de idade, casou-se com Dona Lôla. Foram trezes filhos criados com o que o mar provinha. Pela pesca, o sobrenome Neves se fez. Para Balneário Piçarras, sinônimo de cultura. Prova disso foi a honraria recebida pelo parlamento local há dois anos: recebeu o título de cidadão honorário. Mas, a vida pública nunca flertou com seu ego e ele seguiu sua trajetória como cidadão comum. Mas, de sua importância para a história.

Ele completou 100 anos de idade em 13 de dezembro de 2023 – Foto, Felipe Franco / JC

Das forças armadas, também veio uma convocação: para integrar a tropa brasileira na 2ª Guerra Mundial. Por sorte, o chamado para rumar à Europa não veio. Mas ele ficou à espera. “Eu servi em Itajaí na época de Guerra. Eu fiquei à espera de algum chamado que viesse, se fosse preciso […] A gente era novo, não sentia muito medo. Tinha que ir, na marra. Se não fosse, ia preso – naquela época”, contou ao JC. Ele ostentava honrarias recebidas do exército nacional.

Balneário Piçarras celebrou 60 anos em 2023, mesmo ano de seu centenário. Ele viveu as seis décadas piçarrenses e foi questionado sobre qual presente gostaria de dar ao município. Foi certeiro: gostaria de ter nova a lagoa da barra. “A lagoa era o coração da nossa cidade. Era o coração mais bonito. Aquela região era tudo água. Tinha peixe, berbigão, tinha tudo. Se pudesse voltar no tempo, eu pediria para voltar com a lagoa”, encerrou.

Quando o centenário pescador artesanal piçarrense Abrão Laurentino das Neves se lançava ao Atlântico, a boca da barra do Rio Piçarras ainda não era fixa. Em certos dias, o rio desembocava mais para cá. Em outros, mais para lá. O nível da maré e da lagoa – aterrada nos anos 70 – determinavam o ponto de saída e retorno daqueles que tiravam do mar o sustento para suas famílias. Essa, é uma das lembranças mais saudosas que vem à memória de Seu Abrão, que celebra 100 anos de idade na quarta-feira, 13 de dezembro. Ele viveu os 60 anos de Balneário Piçarras e, se pudesse voltar no tempo, a traria de volta.

Nascido em Joinville em 1923, veio para cá ainda menino, aos sete anos. “Me criei na Penha. Morei no Loteamento do Fleith, que naquele tempo era do Figueiredo. Dali fomos para a Barra, deu uma enchente e carregou a casinha que tinha. Meu pai veio e comprou na frente do Neneco, até a praia. Depois, trocou por esse aqui, que ia até o rio – mas, antes dele morrer, ele vendeu o pasto. Assim eu fui me criando”, detalhou Seu Abrão.

“Isso aqui não tinha nada. Isso aqui era tudo mato”, recorda-se o artesanal nativo mais experientes ‘das Piçarras’. Em conversa na sala de sua casa de madeira, mantida no exuberante terreno familiar no centro da cidade, Seu Abrão frisa se espantar com o crescimento da cidade que ele viu se formar pela mobilização política de grandes famílias locais na segunda metade da década de 50. “Hoje, tá tudo diferente. Já tem muita gente demais”, brinca ele, em alusão à crescente demográfica e imobiliária. 60 anos atrás, quando viu os políticos comemorarem a emancipação, jamais imaginara o cenário que penetra suas retinas azuladas.

Ele não se encanta pelos arranha-céus. As histórias que ecoam pela sala amadeirada, ao lado do quarto decorado por móveis de madeira de lei, são as do passado. Das canoas maciças. Das remadas até a costa. De superar as intempéries. De fixar suas redes e voltar para casa com fartura. Afinal, ao longo da vida formou extensa família. Em 48, aos 25 anos de idade, casou-se com Dona Lôla. Foram trezes filhos criados com o que o mar provinha. “A pesca era mais farta naqueles tempos”, explica Seu Abrão.

“Eu comecei na pesca aos 8 anos. Eu ia com os meus irmãos pescar e daí nunca mais parei. A gente ia pelo rio, porque era mais perto. Ela já fica atracada lá. Tudo canoa à remo. Não tinha motor. Canoas de três palmo de boca. Pegava vento, pegava trovoada. Era a pescaria de espinhel”, lembra o centenário piçarrense. Tempos depois, vieram os motores de centro: “um senhor que tinha uma salga comprou um motor pra mim, por 15 mil réis. Fui pagando em camarão pra ele”.

Pela pesca, o sobrenome Neves se fez. Para Balneário Piçarras, sinônimo de cultura. Prova disso foi a honraria recebida pelo parlamento local há dois anos: recebeu o título de cidadão honorário. Mas, a vida pública nunca flertou com seu ego. Categorizou repulsa pelo terno e gravatá necessários ao Executivo e Legislativo. Eternizou seu nome de outra forma: pela simplicidade da vida praiana. “Aquilo (política) nunca foi pra mim. Eu sou da pesca, de conversar no bar”, brinca. Mas, recorda-se bem das conversas das figuras públicas cravadas na história piçarrense. “Nós éramos todos amigos. Mas, cada um com seus interesses”, completa.

Das forças armadas, também veio uma convocação: para integrar a tropa brasileira na 2ª Guerra Mundial. Por sorte, o chamado para rumar à Europa não veio. Mas ele ficou à espera. “Eu servi em Itajaí na época de Guerra. Eu fiquei à espera de algum chamado que viesse, se fosse preciso […] A gente era novo, não sentia muito medo. Tinha que ir, na marra. Se não fosse, ia preso – naquela época”, conta. Ele ostenta honrarias recebidas do exército nacional – que nesta quarta-feira, 13, estará com sua Banda na casa de Seu Abrão para uma homenagem.

A cidade de Seu Abrão celebrou 60 anos na quinta-feira, 14. Questionado sobre qual pedido faria para presentear a cidade, não titubeia: gostaria de ter nova a lagoa da barra. “A lagoa era o coração da nossa cidade. Era o coração mais bonito. Aquela região era tudo água. Tinha peixe, berbigão, tinha tudo. Se pudesse voltar no tempo, eu pediria para voltar com a lagoa”, encerra o aniversariante.

Confira também
as seguintes matérias recomendads para você