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sexta-feira 10 de julho de 2026

Elas são a maioria

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No eleitorado de Balneário Piçarras e Penha elas são a maioria. São capazes de decidir o rumo de uma eleição. Contudo, na prática, estão longe de igualar a representatividade no alto escalão eletivo dos poderes Legislativo e Executivo. Números oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) detalham que as mulheres representam quase 52% dos eleitores aptos ao voto nas próximas eleições.

Os dados estatísticos oficiais para o próximo pleito detalham que Balneário Piçarras possui 8.066 mulheres votantes, em um hemisfério de 15.722 eleitores. 51,3% de votos femininos. Na cidade de Penha, a diferença é maior. São 10.995 mulheres em um colegiado eleitoral com 20.972 eleitores, totalizando 52,4%. Balneário Piçarras e Penha formam a 68ª Zona Eleitoral, perfazendo um reduto eleitoral feminino de 51,9%.  

Apesar de maioria nos cliques para decidir os eleitos, o resultado é o oposto. Dos 22 vereadores que compõe o parlamento dos dois municípios, apenas 3 são mulheres: Marly Dulcineia Santana (Balneário Piçarras), Márcia Áurea Pinheiro (Penha) e Maria Juraci Alexandrino (Penha). “Três vereadoras já é um começo, mas eu acredito que o espaço ainda pode aumentar, que a mulher pode se mostrar, se impor, se interessar e não fazer distinção de sua capacidade diante do homem”, acredita a eleitora, Franciani Moser. No Executivo jamais houve prefeita ou vice-prefeita. 

Para o cientista político, Clóvis Veronez, a participação das mulheres em processos de tomada de decisão, tanto naqueles ligados à iniciativa privada quanto naqueles ligados a cargos públicos, é baixa no mundo todo. “A separação entre agentes políticos (homens) e agentes sociais (mulheres) contribui para firmar estereótipos e predefinir papeis em diferentes esferas da sociedade, que perpetua desigualdades de influência e poder. Mais do que celebrar o papel importante desempenhado pelas mulheres nos movimentos sociais, é necessário que sejam criadas iniciativas públicas e implementados mecanismos eficazes para promover politicamente as mulheres”, analisa.

Na visão da eleitora de Balneário Piçarras, Lara Weiss, a política nem sempre é vista com bons olhos, o que acaba afastando o público feminino da disputa. “Se existisse uma política verdadeira e pessoas realmente interessadas em trabalhar – e se se formasse uma boa equipe – as mulheres estariam mais engajadas em resolver os problemas”, pontua. “Câmara de Vereadores é lugar de interesses e não de se fazer bons projetos, por isso acredito que seja um lugar para homens”, completa Lara.

Logo, Veronez vê que os movimentos feministas devem abraçar a causa e fomentar ações que fortaleçam o crescimento das mulheres na política. “A baixa representação política das mulheres no país contrasta com o poder organizativo e articulatório do movimento feministas no país. Esse é considerado um dos mais bem articulados e influentes movimentos de mulheres da América Latina e a ele é atribuído um número de conquistas no âmbito das políticas públicas do estado. Há um consenso intuitivo de que as mulheres são maioria dos membros ativos de movimentos sociais. É, portanto, curioso que o número de mulheres eleitas para posições legislativas seja um dos mais baixos da América Latina, sendo o Brasil um dos países onde o movimento de mulheres é um dos mais fortes do continente. A questão, portanto, é até que ponto a organização social das mulheres contribui para promovê-las a cargos políticos decisórios? Considerar essa questão é um dos focos centrais para entendimento do fenômeno”.

“O machismo ainda é muito forte quando o assunto se remete à política e à mulher. Os movimentos feministas mostram isso, especialmente quando a questão é do cotidiano. É preciso, inclusive, que as mulheres se imponham nos partidos e assumam o controle nesse período de pré-candidaturas”, acredita a eleitora de Penha, Tatiane Ribeiro. Para as próximas eleições, as mulheres candidatas devem continuar sendo minoria frente ao bloco dos homens. Legalmente, o TSE determina que os partidos possuam um quadro de candidatos compostos por 30% de mulheres.

Franciani Moser vê que o cenário deve mudar nos próximos anos e também enxerga o “machismo enraizado” na política. “Acredito que a tendência é se fortalecer, visto que a mulher busca uma representatividade, a democracia, a valorização das suas ideias, a sua oportunidade de mudar o contexto e a história. Na minha opinião, a participação da mulher na política ainda é um desafio que vai ter que ser enfrentado, porque apesar de não ser admitido, ainda se tem enraizado a questão do machismo, do patriarcalismo e do homem que ocupa o espaço público e a mulher, o privado. Apesar de muitas coisas terem sido modificadas com as políticas afirmativas para a ampliação da participação feminina, a mulher precisa se motivar a se candidatar, acreditar no seu potencial, ter autoconfiança e, principalmente ter a certeza de que, o que vai ditar o êxito não é questão de sexo, e sim o compromisso com a democracia e a coletividade”, opina.

Clóvis frisa que igualdade social e política pressupõe mudanças no caráter e na composição dos espaços participativos e representativos. “Pressupõe também o aprofundamento da democracia através da inclusão de diferentes atores no processo de tomada de decisão política. Por um lado, isso depende de transformações no âmbito da cultura em geral e da cultura política mais especificamente, com a desnaturalização dos papeis sociais e das funções e tarefas tradicionalmente exercidas por um e por outro sexo (para que sejam desempenhadas por ambos), mas, por outro lado, essas mudanças podem ser incentivadas e aceleradas por mecanismos institucionais e iniciativas políticas”, encerra.

Foto por: Internet

REDAÇÃO, JORNAL DO COMÉRCIO
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