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quarta-feira 17 de abril de 2024


Casa de Palmito: o resgate de uma parte da história de Barra Velha

“Ela representa para Barra Velha uma parte histórica, um período histórico importante da nossa cidade”, define o professor e historiador, Juliano Bernardes

Foto, Juliano Bernardes
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O único patrimônio histórico tombado de Barra Velha está prestes a ser devolvido à cidade. Construída na década de 40, a Casa de Palmito foi realocada do Costão dos Náufragos para a Praça Lauro Loyola e passou por um fino processo de restauro – que manteve sua base arquitetônica e uma de suas principais peculiaridades: as paredes intertravadas com troncos de palmito. Agora, a história barra-velhense continuará a ser contada.

Casa foi realocada na Praça Lauro Loyola, no centro da cidade – Foto, Felipe Franco / JC

O trabalho de reconstrução foi custeado pela empresa Barra 07 Empreendimentos, que adquiriu o terreno onde a casa tombada estava alocada. Em reunião com o Conselho Municipal do Patrimônio Cultura (Compac), a empresa concordou em custear o processo de realocação e reconstrução da estrutura. Externamente, segue idêntica. Internamente, os espaços foram readequados para que projetos de valorização e fomento da cultura e da história sejam desenvolvidos.

“Ela representa para Barra Velha uma parte histórica, um período histórico importante da nossa cidade. Passando por uma fase de crescimento bem intenso – estão aí os dados de IBGE que mostram que a cidade de Santa Catarina, a segunda cidade que mais cresceu, foi Barra Velha. Então, a gente percebe o quanto é importante preservar os patrimônios históricos, pois há todo esse processo civil, muito acelerado aqui em Barra Velha e Piçarras. Tem que ser pensado também na questão histórica, para não perder tudo. Já perdemos muita coisa e não podemos perder mais. Então por isso que é importante manter a Casa de Palmito”, define o professor, historiador e presidente do Compac, Juliano Bernardes.

Então, a gente percebe o quanto é importante preservar os patrimônios históricos, pois há todo esse processo civil, muito acelerado aqui em Barra Velha e Piçarras. Tem que ser pensado também na questão histórica, para não perder tudo”

JULIANO BERNARDES

Para o ex-presidente do Compac, que presidia o conselho no momento dos diálogos com a construtora, Filipe Oliveira, “a recuperação da Casa de Palmito é vital para Barra Velha. Esta edificação, com suas paredes únicas feitas de troncos de Palmito – algo que a legislação atual proíbe devido à proteção ambiental – é um pedaço vivo da nossa história. A casa foi restaurada 100% pela iniciativa privada e possui quatro setores principais: um escritório no sótão, um auditório para 80 pessoas aos fundos, um amplo espaço para exposições culturais na frente e um hall de entrada moderno para exposições menores e diversos usos. Ao restaurá-la, não só estamos preservando um símbolo do nosso passado, mas também criando um espaço multifuncional para as futuras gerações aprenderem, se reunirem e se orgulharem. Como representante da CDL no Conselho de Patrimônio, vejo isso como um passo crucial para valorizar nossa cultura e história local”.

“Esta edificação, com suas paredes únicas feitas de troncos de Palmito – algo que a legislação atual proíbe devido à proteção ambiental – é um pedaço vivo da nossa história”

FILIPE OLIVEIRA
FOTO, FELIPE FRANCO / JC

Ela foi edificada pelo casal Augusto Teodoro Wald Becker e Erna Bisewvski, que se conheceu na cidade e logo se uniu. “A Casa de Palmito pode ser considerada a primeira mansão de Barra Velha, a primeira casa de grande porte. Ela foi construída 1939 e 1943, em uma época em que havia só pequenas casas de pescadores lá naquela região. E, quando ela foi feita, chamava muita atenção dos moradores de Barra Velha, de quem visitava a cidade –pelo tamanho dela”, acrescenta Juliano.

O presidente da Fundação de Turismo, Cultura e Esporte (Fumtec), Pierre Costa, adianta que haverá uma curadoria para definir os itens que irão decorar fixamente a Casa de Palmito, espaço que também será usado para exposições itinerantes. “É um espaço onde manteremos vivas as nossas raízes, a nossa história e essência. Nos próximos dias iremos definir as recordações que irão decorar a Casa do Palmito. Será a nossa casa de recordações”, assegura.

“É um espaço onde manteremos vivas as nossas raízes”

PIERRE COSTA

O espaço deve ser aberto ao público até final deste ano. Porém, Juliano faz uma cobrança: a manutenção. “A recuperação foi feita pelos empresários, sem que a Prefeitura precisasse gastar um real. Mas, a manutenção será de responsabilidade. Será preciso mobiliar, garantir segurança, equipar toda ela…”.

Casa de Palmito foi construída na década de 40 – Foto Juliano Bernardes

CARACTERÍSTICAS ÚNICAS E UMA HISTÓRIA DE AMOR

O professor e historiador destaca as características da casa, edificada com troncos de palmitos extraídos da nativa mata barra-velhense. Ele também enaltece a história de amor vivida por Seu Wald e Dona Erna. Seu Wald faleceu em 1955. Dona Erna seguiu na residência até 2014, quando morreu, dias após a criação do Compac e edição da Lei que tombou a Casa de Palmito como patrimônio história.

“Sua história em Barra Velha, iniciou no hotel da família Krause, pois com a viuvez deixou Joinville e veio trabalhar no hotel de seus familiares. Aqui, conheceu o industrial catarinense, radicado no Paraná, Augusto Teodoro Wald Becker, que costumava veranear nas praias de Santa Catarina. Com Wald Becker, viveu uma rápida história de amor na Casa de Palmito, construída com troncos de palmitos extraídos das matas do município”, narra o historiador, que visitou Dona Erna no hospital para comunicar que seu desejo havia sido atendido.

“Podemos dizer que a Casa de Palmito hoje seria uma das únicas do Brasil com esse tipo de técnica construtiva e esse tipo de material”

JULIANO BERNARDES

Quanto à estrutura, Juliano explica que se trata de “uma casa de 250m² que realmente chamava bastante atenção com uma técnica construtiva diferenciada, que é um sistema de encaixes com troncos de palmito – algo que até que naquela época era comum, mas que hoje em dia é algo raríssimo de ser encontrado”, frisa. “Podemos dizer que a Casa de Palmito hoje seria uma das únicas do Brasil com esse tipo de técnica construtiva e esse tipo de material. Inclusive a empresa especializada em patrimônio histórico, que é trabalhou ali na reconstrução dela, ficou impressionada da forma como ela foi feita: sistema de encaixe da madeira, o uso de poucos pregos”.

Com o falecimento de Dona Erna, moradores em situação de rua utilizaram a casa – Foto, Juliano Bernardes

HISTÓRIA QUASE FOI PERDIDA

Com o falecimento de Dona Erna – Seu Wald havia lhe dado o direito de usufruto até sua morte – iniciou-se uma discussão pela herança e o processo de tombamento quase foi revertido. Até que o imbróglio se resolveu, a casa ficou abandonada e à sorte.  “A importância que Barra Velha corria o risco de perder o seu único, seu primeiro e único imóvel tombado como patrimônio histórico, que estava prestes a ruir porque a situação dela estava bem complicada. Após a morte da dona Erna, 2014, a família, os herdeiros eles entraram na justiça pra destombar e a casa ficou completamente abandonada. Então, foi tomada por moradores em situação de rua, havia marcas de fogueira dentro dela, já não tinha não tinha mais forro, mais piso…A gente estava realmente na eminência de perdê-la”, finaliza Juliano.

1 COMENTÁRIO

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Roseli Pscheidt
Roseli Pscheidt
6 meses atrás

Parabénsss pela iniciativa que tiveram,…belíssimo trabalho. História precisamos preservar sempre…

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