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segunda-feira 15 de abril de 2024


Epagri e Univali avançam em estudos para cultivo de pepino do mar na costa catarinense

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Epagri e Universidade do Vale do Itajaí (Univali) vem obtendo resultados significativos em um projeto de pesquisado voltado à implantação de uma nova cadeia produtiva na maricultura do litoral catarinense: a criação de pepino-do-mar em cativeiro. Este ano, as primeiras larvas foram produzidas e plantadas no mar de Penha, que agora passam por um fino trabalho de monitorando evolutivo. Iniciado em 2019, o trabalho entra em seu quinto ano de estudos.

 “A gente teve bastante dificuldade ano passado, principalmente pela condição de maturação dos organismos, mas esse ano ele conseguiu desovar, conseguimos uma larvicultura. Estamos com as larvas em um estágio mais avançado e já estamos fixando. Dessa espécie-alvo, que é a Holothuria grisea, que é a principal espécie que a gente vem trabalhando, estão com umas larvas”, enaltece o oceanógrafo com mestrado e doutorado em aquicultura e professor da Univali, Gilberto Manzoni, que tem o apoio direto do professor, Adriano Marenzi  e do engenheiro de Aquicultura , Robson Cardoso da Costa, responsável pelas atividades no laboratório.

 “A gente teve bastante dificuldade ano passado, principalmente pela condição de maturação dos organismos, mas esse ano ele conseguiu desovar, conseguimos uma larvicultura”

GILBERTO MANZONI
FOTO, UNIVALI PENHA

A espécie alvo do estudo tem grande potencial econômico. Apesar de ser pouco consumida no Brasil, é considerada uma iguaria em outros países, principalmente na Ásia. Devido à alta demanda, o preço de um quilo do animal pode variar entre US$ 300,00 e US$ 1mil no mercado exterior. A situação pode fortalecer o poderio econômico de grande parte da costa catarinense, situação que gera maior afinco dos pesquisadores.

“Inicialmente foi feito um trabalho de conhecimento da biologia reprodutiva do pepino do mar. Então, foram feitas coletas no ambiente natural para monitorar o índice de condição, para identificar o período reprodutivo. A partir dessas informações, foi começado a trazer os indivíduos para o laboratório para fazer a desova, a indução, a liberação do material reprodutivo e depois a produção de larvas em laboratórios”, acrescenta Manzoni. “Tem outra espécie também, que a gente chama bolinha, que é outra espécie do pepino do mar. Já conseguimos fechar o ciclo, já levou para o mar e já tem alguns indivíduos jovens aqui no laboratório. Então é um trabalho de pesquisa”, reforça Manzoni.

Experiência para identificar melhor método para induzir a liberação do material reprodutivo – Foto, Univali Penha

O pesquisador do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Epagri/Cedap) e coordenador do projeto, Guilherme Rupp, reforça ainda que além do mercado gastronômico, o pepino do mar é conhecido por suas comprovadas propriedades nutracêuticas e farmacológicas, sendo muito utilizada na medicina tradicional oriental como anti-inflamatório e antirreumático. Também foram comprovadas em laboratório atividades antitumorais, antivirais e antibacterianas, além de ser rica em colágeno. Por estas características, é matéria-prima de interesse das indústrias farmacêutica e cosmética.

Em 2022, o trabalho entrou em sua segunda fase de pesquisas e a cidade de Penha foi selecionada para abrigar essa nova etapa justamente por possuir o maior parque marinho produtivo do Estado. “Fizemos um levantamento desde São Francisco do Sul até o Cabo de Santa Marta, para identificar as populações de pepinos-do-mar, mas os experimentos sobre cultivo estão sendo, no momento, realizados na Penha em parceria entre Epagri e Univali, pois é na Penha que existe um dos maiores parques de cultivo do Estado, e estamos verificando o potencial de cultivo integrado de moluscos com pepinos-do-mar” explica o pesquisador do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Epagri/Cedap) e coordenador do projeto, Guilherme Rupp.

A segunda fase se iniciou em 2022 e segue até 2024, com financiamento da Fapesc. A proposta é desenvolver a tecnologia para cultivo integral do pepino-do-mar em Santa Catarina, usando uma das três espécies identificadas no litoral catarinense. O pesquisador revela que desenvolver tal tecnologia constitui um grande desafio, pois essa é uma nova espécie para a aquicultura. A pesquisa é formada por várias etapas, “cada uma com seus protocolos específicos, que precisam ser desenvolvidos”, descreve.

“Ainda é cedo para afirmar se teremos sucesso na criação de uma tecnologia que permita o cultivo deste animal no litoral catarinense, mas os resultados iniciais são promissores”

GUILHERME RUPP

Guilherme entende que Santa Catarina tem as condições propícias para se tornar o primeiro estado brasileiro a produzir pepinos-do-mar em escala comercial. “Ainda é cedo para afirmar se teremos sucesso na criação de uma tecnologia que permita o cultivo deste animal no litoral catarinense, mas os resultados iniciais são promissores”, pondera o coordenador.

PAPEL IMPORTANTE NO ECOSSISTEMA
No ecossistema marinho, o pepino-do-mar desempenha papel importante. Ele se alimenta de resíduos de outros organismos que se acumulam no fundo, e expele areia limpa e nutrientes inorgânicos após a digestão, no que pode ser considerado um trabalho de limpeza do mar e reciclagem de nutrientes. O animal também atua no equilíbrio do pH da água salgada, ajudando a combater um dos maiores riscos do acúmulo de CO² na atmosfera, que é a acidificação dos oceanos. Segundo Guilherme, a captura indiscriminada de pepinos-do-mar tem provocado redução nas populações. “A captura ilegal é um problema mundial, quando uma população declina, é difícil de ser recuperada”, descreve o pesquisador.

Por isso, ele teve o cuidado de iniciar seus trabalhos realizando um estudo populacional e reprodutivo dos pepinos-do-mar em Santa Catarina. A pesquisa, aplicada entre 2019 e 2022, identificou três espécies do animal habitando o litoral catarinense, uma delas que ainda não havia sido descrita para a região. “Todas as licenças ambientais necessárias foram obtidas para a realização deste trabalho”, pontua Guilherme. 

Com esse estudo, os pesquisadores reuniram informações que poderão permitir um eventual repovoamento do animal, caso ele venha a correr risco de desaparecer no litoral do Estado. Segundo Guilherme, casos de pesca ilegal do pepino-do-mar são frequentes no Brasil e já foram registrados até em Santa Catarina.

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