A operação especial que resultou na retirada de 32 toneladas da restinga de Navegantes serviu de recomeço para Fernando Gomes, de 61 anos. Há seis anos vivendo em situação de rua no município, sendo os últimos oito meses abrigado na vegetação da orla, o homem foi encontrado pelas equipes da Prefeitura durante a ação e, dali, nasceu uma oportunidade real para resgatar sua dignidade com a proposta de uma vaga de emprego na empresa responsável pela limpeza urbana da cidade.
“Eles vieram para limpar a restinga, não para procurar ninguém. E eu estava ali. Deu certo que, graças a Deus, eu estava ali e fui achado por essas pessoas maravilhosas, que abriram a porta e me deram uma oportunidade. Agora cabe a mim manter”, contou Fernando.
O divisor de águas, segundo o trabalhador, foi o diálogo franco com a administração municipal, que prontamente articulou sua contratação junto à empresa prestadora dos serviços de limpeza urbana. Sem comprovante de residência — barreira burocrática que já havia lhe custado vagas de emprego em agências de recursos humanos no passado —, Fernando recebeu suporte imediato. Atualmente, ele está alojado temporariamente nas próprias dependências da contratante.

“Em seis anos na rua, só de olhar no olho você já enxerga a verdade e o interesse. Quando o prefeito veio e falou comigo, olhando nos olhos, eu só vi verdade. Ali eu já sabia que ia dar certo. É como andar de bicicleta, você nunca esquece o que sabe fazer. Não tem como comparar você ser produtivo e não produtivo. Estar sem produzir por uma situação que você mesmo criou é degradante. Mas eu nunca baixei a cabeça, nunca me dei por vencido”, afirmou Fernando.
Natural de Lages, na serra catarinense, mas criado no Paraná, Fernando escolheu Navegantes para tentar refazer a vida por uma forte ligação afetiva: foi na cidade que ele se casou, há 39 anos, e onde nasceram seus dois filhos mais velhos. Após o fim do casamento de três décadas, grande parte devido ao uso de drogas e o avanço da vulnerabilidade social, o isolamento severo acabou por afastá-lo dos filhos. A perda de um aparelho celular cortou o último canal de contato com a filha mais velha.


Afastado das drogas desde que voltou a Navegantes, há seis anos, e agora empregado, o próximo e mais aguardado objetivo é a reconstrução desses vínculos. Fernando quer viajar para visitar a filha, no Paraná, e finalmente conhecer o seu terceiro neto.
“Ela sempre me convidou, mas eu nunca tive coragem de ir. Me apresentar de que jeito? Não adianta você cortar o cabelo, fazer a barba, se o interior da pessoa está um caco. Agora vai ser diferente. Poder pegar meus netos, tomar um sorvete. Agora eu quero chegar lá com dignidade”, compartilhou.





