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sexta-feira 11 de setembro de 2026

Homem que matou a advogada Karize é condenado a mais de 31 anos de prisão em julgamento de quase 15 horas de duração

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Karize Ana Fagundes Lemos foi enforcada até a morte dentro da própria casa pelo companheiro, em Caçador, quando se recuperava de uma cirurgia nos rins, e teve o corpo descartado na mata, perdendo a possibilidade de viver seus sonhos. Mas o autor, Eloid da Cruz Antunes, não ficará impune. Ele foi condenado, com base na denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a 31 anos e 10 meses de prisão por homicídio, qualificado por feminicídio, motivo torpe, asfixia e recurso que dificultou a defesa, e também por ocultação de cadáver. 

O julgamento aconteceu nesta quinta-feira (10/9), no salão do Tribunal do Júri da Comarca de Caçador, que foi ocupado durante todo o dia por pessoas interessadas em acompanhar de perto o desfecho do caso, incluindo colegas de profissão da vítima. A sentença trouxe um pouco de paz ao pai de Karize, seu Rudnei, que precisou passar por um cateterismo após a morte da filha. “A gente sofre muito. Foram 40 dias de muita angústia, e quando o corpo finalmente foi encontrado nem consegui fazer um velório decente, pois ele já estava em decomposição. A condenação não vai trazer a minha filha de volta, mas alivia um pouco o coração”, desabafou. 

Meses antes de ser morta, a vítima tinha comprado um carro e aberto o próprio escritório de advocacia. Ela se manifestou pela última vez no Tribunal do Júri, pela fala dos Promotores de Justiça Diego Bertoldi e Marco Antônio Vargas Sandi. Eles sustentaram as teses da denúncia, mostrando aos jurados toda a dinâmica do crime, ocorrido em 28 de setembro de 2024, ou seja, há quase dois anos. 

“Neste plenário há uma pessoa que não pode clamar por justiça, e essa pessoa se chama Karize, mas o Ministério Público de Santa Catarina está aqui para falar em nome dela. Não vamos permitir que a verdade seja enterrada junto com o corpo, pois isso representaria um segundo assassinato. Senhoras e senhores jurados, o poder da vida está nas mãos de vocês”, disse o Promotor de Justiça Diego Bertoldi. 

Eles apresentaram provas irrefutáveis de que o crime ocorreu em um contexto de violência doméstica. “As imagens da cena do crime feitas pela perícia técnica e todo o restante do conjunto probatório não deixam dúvidas quanto à autoria e à crueldade empregadas pelo réu. A sociedade clama por justiça, e é papel dos jurados fazê-la”, disse o Promotor de Justiça Marco Antônio Vargas Sandi.

A dinâmica do crime 

As investigações concluíram que o réu enforcou Karize com uma corda de sisal cortada de um arranhador de gatos por ciúmes, quando ela manifestou o desejo de terminar a relação e estava debilitada por conta da cirurgia. Depois, enrolou o corpo em um cobertor, colocou-o dentro do carro, foi até um posto de combustível abastecer, saiu sem pagar e dirigiu por cerca de 150 km até Palmas, no Paraná. Então, descartou-o em uma plantação de pinus, telefonou para dois amigos contando o que tinha feito e seguiu viagem. 

Os amigos, por sua vez, decidiram ir até a delegacia contar os detalhes da ligação, desencadeando uma operação que contou com o apoio da Polícia Civil do Paraná. A prisão foi efetuada dois dias depois do crime em um motel em Guaíra, perto do Paraguai. As investigações concluíram que o homem não conseguiu cruzar a fronteira porque ela estava fechada para obras. 

Eloid não contou onde havia deixado o corpo. A localização foi descoberta graças a um trabalho de inteligência feito a partir de dados extraídos do celular. A identidade da vítima foi confirmada a partir da confrontação entre a arcada dentária e um exame odontológico que ela havia feito recentemente. A perícia também confirmou que o roupão que Karize vestia e o cobertor que a enrolava eram os mesmos que apareciam em fotos postadas anteriormente nas redes sociais.

O Júri 

O réu chegou ao Fórum de Caçador para ser julgado em uma viatura da Polícia Penal e retornou ao presídio assim que o julgamento terminou para cumprir sua pena. Ele teve um julgamento justo, conforme prevê a Constituição Federal, com direito à presunção de inocência, ao contraditório e a uma ampla defesa feita por dois advogados. Ele confessou o crime durante o interrogatório. 

Vale ressaltar que o caso foi julgado por homicídio, e não por feminicídio, pois ocorreu algumas semanas antes do sancionamento da lei que tornou os crimes dolosos contra a vida das mulheres um crime autônomo, e a legislação penal brasileira não retroage em desfavor do réu. 

A sessão do Tribunal do Júri teve quase 15 horas de duração. Os trabalhos começaram às 7h30 e se estenderam até às 22h27, quando a sentença foi lida. Sete testemunhas foram ouvidas, incluindo um amigo e uma vizinha de Karize, que relembraram a convivência com ela; dois policiais civis, que contaram detalhes das investigações; a frentista do posto de combustível que atendeu o réu; e os dois amigos que receberam a ligação e foram até a delegacia. 

A vizinha da vítima, Vitória de Oliveira, contou que vinha levando sopa para ela durante a recuperação de cirurgia e relembrou os momentos de angústia vividos com seu desaparecimento, e posteriormente, da morte. “A gente se dava muito bem, ela era uma pessoa excelente e confesso que até hoje não caiu a ficha. Não dá para acreditar que fizeram uma crueldade dessas com ela”, disse aos prantos. 

Gatos também foram mortos 

Karize era apaixonada por animais. Ela costumava resgatá-los nas ruas e encaminhá-los para tratamento, e tinha cinco gatos em casa, aos quais amava e cuidava. As investigações concluíram que três desses animais também foram mortos pelo réu naquele dia, possivelmente com a mesma corda, e que os outros dois conseguiram deixar o local antes de serem atacados. 

Mapa do Feminicídio 

O caso Karize encaixa-se em pelo menos duas estatísticas do Mapa do Feminicídio do MPSC: ela foi morta pelo parceiro ou ex-parceiro, assim como em 63,9% das ocorrências, justamente quando manifestou o desejo de terminar a relação, assim como ocorre com 45,8% das vítimas de feminicídio. 

Denuncie 

Casos como o de Karize podem ser evitados quando os sinais de violência são reconhecidos e denunciados antes que a situação se agrave. A violência contra a mulher não deve ser tratada como um problema privado, e qualquer pessoa que presencie, saiba ou suspeite de uma situação de violência pode procurar ajuda. Denunciar é uma forma de proteger a vítima e pode interromper um ciclo de agressões antes que ele resulte em uma tragédia. 

Canais de denúncia 

● Ouvidoria MPSC: ligue 127 ou preencha o formulário on-line;  

● Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT): clique aqui e veja como buscar atendimento;  

● Polícia Militar: ligue 190;  

● Polícia Civil: ligue 181 ou faça um boletim de ocorrência on-line;  

● Central de Atendimento à Mulher: ligue 180. 

REDAÇÃO, JORNAL DO COMÉRCIO
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