O fotógrafo de Penha, Rafael Saldanha, venceu recentemente o concurso internacional do Centro de Estudos Ibéricos (Portugal), “Concurso Transversalidades – Fotografia sem Fronteiras 2017”. Na categoria, “Espaços rurais, agricultura e povoamento”, o profissional registrou o cotidiano dos colhedores de café da Colômbia – na região da cidade de Concordia -, denotando as expressões de entrega, esforço e periculosidade que cercam uma xícara de café.
O trabalho premiado é intitulado: “Los Chapoleros” – Os colhedores de café dos Andes Colombianos – Cordilheira dos Andes (Colômbia). “Chapolera é uma camponesa colombiana que migra para as fazendas de café na época da colheita, esse nome vem de uma espécie de borboleta conhecida como Chapora, que só aparece nas plantações de café em tempos de colheita. Hoje esse termo é empregado tanto para mulher como para o homem”, explicou Saldanha.
As fotografias foram registradas sob a ótica do preto e branco, como forma de “ser mais incisivo e despertar o imaginário do meu espectador e com isso passar mais sentimento”, definiu. A viagem de trabalho foi realizada em outubro de 2016, quando Saldanha foi para Medellín para participar da premiação e exposição dos finalistas do concurso latino americano de fotografia documental “Los Trabajos y los días” – com a obra, “O Desbravador Solitário”. “Trabalho que faz parte do documentário Raízes, sobre a pesca artesanal em Penha”, frisou.
Profissional comunicativo e de ampla visão sobre a rica simplicidade dos fatos que cercam a vida, Saldanha enalteceu a conquista como uma vitória para Penha e para sua carreira. “O mais importante é que um profissional de Penha está começando a fazer história internacionalmente. Isso é importante. É uma conquista que fortalece meu nome no meio da fotografia”, salientou. Cinco categorias compunham o concurso, que premiou Saldanha com 1.500 Euros e a exposição pública de seu trabalho.
Foram mais de mil cliques e uma experiência que Saldanha jamais irá se esquecer. “Para ser honesto eu não imaginava o que eu iria encontrar no local. O que a fotografia documental está me ensinando é, que independentemente do local que você for fotografar, tem sempre que chegar com o coração aberto e respeitar o tempo e o espaço das pessoas, porque só assim, elas vão poder contar suas verdadeiras histórias”, definiu.
JC – Quais motivos o levaram ao tema?
Rafael: O principal motivo foi descobrir que o café colombiano é considerado uns dos melhores do mundo, e é o principal produto agrícola da Colômbia. Esse café é plantado em terreno extremamente acidentado da Cordilheira dos Andes, por isso necessita ser colhido de forma manual pelos trabalhadores da região. Esse trabalhador que gera tanta riqueza para o desenvolvimento do seu país foi o foco desse documentário.
JC – Quando saiu do Brasil, já tinha algo em mente?
Rafael: Sim, quando eu soube que iria para Colômbia comecei a estudar o melhor tema para meu próximo documentário. Entrei em sites de notícias da Colômbia e um desses eu descobri que o governo estava contratando 60 mil trabalhadores para colheita do café. Com isso eu já sabia que estava indo na melhor época para realizar esse documentário, o que foi um pouco de sorte também.
JC – A percepção do local foi mantida quando realmente conheceu o cotidiano?
Rafael: Assim, para ser honesto eu não imaginava o que eu iria encontrar no local. O que a fotografia documental está me ensinando é que independentemente do local que você for fotografar, tem sempre que chegar com o coração aberto e respeitar o tempo e o espaço das pessoas, porque só assim, elas vão poder contar suas verdadeiras histórias. No começo foi um choque cultural muito grande, porque na fazenda onde eu fotografei, a maioria dos trabalhadores eram indígenas, e eles estranharam bastante minha presença. Mas, depois eu já fazia parte do ambiente deles e já começava a entender melhor a dinâmica do trabalho do colhedor. Equilibrar nas costas sacas e mais sacas de café num terreno muito acidentado é extremamente desgastante, mas, me pareceu um ambiente leve, a maioria cantava e ria bastante durante a colheita. No final do dia, na hora da pesagem, para mim foi a parte mais triste, porque estavam todos muito cansados, por mais que tivessem tido a mesma jornada de trabalho, quem colheu mais recebia mais, coisas do capitalismo.
JC – Além dos registros fotográficos, quais foram os relatos destes trabalhadores confidenciados a você?
Rafael: Nesse documentário, diferentemente do que estou realizando sobre a pesca que eu tenho mais tempo para conversar com o pescador, lá eu não tive esse tempo e não queria atrapalhar o trabalho deles que ganhavam por produtividade. Por isso, eu escolhi dois personagens principais para eu conhecer melhor, um homem e uma mulher. Nascido em Medellín, José Leonardo Velez, que faz parte das fotos premiadas, tem uma vida inteira dedicada ao trabalho nas fincas cafeeiras. Mudou-se para o campo junto com sua família ainda quando era muito criança, hoje aos 64 anos Leonel, que não sabe ler nem escrever, continua no campo dedicando-se a diversas tarefas nas fazendas de café. Dona Mercedes, que também faz parte das fotos premiadas, é uma camponesa que pertence ao grupo étnico Paeces, indígenas que vivem ao sul da Colômbia, no departamento de Cauca na cidade de Caldono. Aos 73 anos, migra todo ano para as fazendas de café na época da colheita.
JC – A técnica P&B é uma de suas favoritas, porque?
Rafael: Eu acho que pelo fato dos fotógrafos que eu mais admiro trabalharem com o P&B e com isso eu fui incorporando de forma natural, principalmente na fotografia documental onde é preciso ser mais incisivo e despertar o imaginário do meu espectador e com isso passar mais sentimento.





