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quinta-feira 18 de abril de 2024


Autor de chacina na creche de Saudades é sentenciado a 329 anos de prisão

O Conselho de Sentença acolheu todas as teses apresentadas pelo Ministério Público de Santa Catarina

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A sentença para o autor da chacina da creche de Saudades foi lida às 20h32 desta quinta-feira, 10 de agosto de 2023, no Fórum da cidade de Pinhalzinho – oeste catarinense. O criminoso foi sentenciado a 329 anos e quatro meses de condenação em regime fechado por cinco homicídios triplamente qualificados (motivo torpe, meio cruel e emprego de recurso que dificultou a defesa das vítimas) contra três crianças e duas mulheres, e outras 14 tentativas de homicídios qualificados.

O réu também foi condenado ao pagamento de indenização às vítimas, com valores fixados em R$ 500 mil para cada família de vítima falecida, R$ 400 mil para a família do bebê que foi socorrido a tempo de se recuperar e R$ 40 mil para cada uma das 14 vítimas de tentativa de homicídio. Cabe recurso da decisão assinada formalmente pelo magistrado da Comarca, o juiz Caio Lemgruber Taborda.

“Hoje, a comunidade de Saudades teve a resposta do Poder Judiciário em relação a esse caso que marcou a história da nossa comarca, pouco mais de dois anos após a ocorrência do crime”

CAIO LEMGRUBER TABORDA

“Foi um processo bastante trabalhoso, que demandou muito empenho de toda a equipe da unidade, mas hoje chegamos ao fim com a satisfação de um júri em que a ordem foi mantida por todos os envolvidos, tanto profissionalmente quanto como espectadores. Com a colaboração dos representantes da acusação, da defesa e, principalmente, dos jurados, conseguimos imprimir agilidade aos trabalhos, sem a necessidade de estender o julgamento por mais dias. Hoje, a comunidade de Saudades teve a resposta do Poder Judiciário em relação a esse caso que marcou a história da nossa comarca, pouco mais de dois anos após a ocorrência do crime”, ressaltou o magistrado.

Todas as teses da denúncia apresentadas pelos promotores do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) foram acolhidas pelo Conselho de Sentença. Uma das vítimas de tentativa de homicídio, que preferiu não ser identificada, externou à equipe de jornalistas do MPSC sentimento de agradecimento pelo resultado: “Fomos muito bem representados nesse dia tão difícil. Nossa gratidão aos Promotores por trabalharem por nós”. Outra vítima disse à equipe do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), que “a Justiça foi feita! Estou me sentindo aliviada por entender que a condenação dele servirá de exemplo para outros que consideram cometer crimes semelhantes. Precisamos observar nossas crianças e adolescentes para auxiliá-los em dificuldades emocionais e psicológicas, para um convívio social mais saudável e harmonioso”.

“A Justiça foi feita! Estou me sentindo aliviada por entender que a condenação dele servirá de exemplo para outros que consideram cometer crimes semelhantes”

Os promotores de Justiça Douglas Dellazari e Júlio André Locatelli acompanharam todo o processo, desde a prisão em flagrante e a conversão para o regime preventivo, passando pela elaboração da denúncia e a instrução criminal, até o tão aguardado Tribunal do Júri. Além deles, Bruno Poerschke e Fabrício Nunes atuaram em defesa das vítimas e seus familiares. Os quatro promotores de Justiça conseguiram, juntos, provar aos jurados que o réu possuía plena capacidade mental e planejou os crimes minuciosamente ao longo de dez meses.

Na sessão do Tribunal do Júri, Douglas e Júlio fizeram intervenções pontuais durante as oitivas e a argumentação da defesa.  Bruno Poerschke Vieira, que atualmente responde pela comarca, fez a sustentação oral, ressaltando a importância da condenação dentro de um contexto social. “Precisamos estancar essa ferida para que fatos como esse não voltem a acontecer”, defendeu. Na réplica, Fabrício Nunes falou sobre o sentimento de quem perdeu entes queridos. “A pior dor do mundo é perder um filho. Nada pode ser mais cruel, mais terrível. Resta à comunidade de Saudades a esperança da justiça”, disse.

Após o encerramento da sessão, o réu retornou ao Presídio Regional de Chapecó e o público voltou para casa mesclando emoção e alívio. As lágrimas da dor se misturaram a semblantes consolados pelo tão aguardado desfecho do caso que mudou para sempre a rotina de uma pequena e acolhedora cidade do Oeste catarinense chamada Saudades.


SOBRE A PENA

Fabrício Nunes, Douglas Dellazari, Júlio André Locatelli e Bruno Poerschke Vieira emitiram nota oficial analisando o resultado final do julgamento. “O cenário demonstrado no plenário pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) foi que o réu, totalmente imputável, capaz e responsável pelos atos, agiu com total brutalidade, covardia, frieza e extrema violência, desprovido de qualquer sentimento humanitário, atingindo crianças, agentes educativas e professoras no local, uma creche que até então era sinônimo de segurança, acolhimento e confiança. O rigor na resposta penal era necessário, e assim concluído acertadamente pela comarca de Pinhalzinho. Que essa decisão de hoje responsabilizando o réu pelo massacre sirva para atenuar, mesmo que minimamente, a dor dos familiares e como paradigma para casos semelhantes, elemento de reprovação e prevenção de novas práticas. Fez-se a justiça possível, dentro dos limites impostos pela legislação, ciente de que a pena, ainda que expressiva, infelizmente não trará as inocentes vítimas de volta à vida, motivo pelo qual o Ministério Público externa, uma vez mais, sua sincera solidariedade”.

UM CRIME QUE CHOCOU O MUNDO

Na manhã do dia 4 de maio de 2021, o réu entrou em uma creche no município de Saudades, matou duas professoras e três bebês e tentou matar outras 14 pessoas, entre educadoras, funcionárias e crianças usando uma adaga que havia comprado pela internet especialmente para o ataque. O réu, que tentou se matar após o atentado, foi detido por populares e entregue às autoridades. Ele confessou o crime.


Seguindo recomendações mais recentes de especialistas das áreas da psicologia e de investigação criminal, o Jornal do Comércio deixará de publicar o nome de autores de massacres. A decisão tem por objetivo evitar a visibilidade do agressor, situação essa que pode estimular outros crimes. Análises técnicas revelam que pessoas com esse perfil buscam notoriedade midiática.

REDAÇÃO, JORNAL DO COMÉRCIO
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