O curador geral do Museu Oceanográficoda Universidade do Vale do Itajaí (Univali), professor Jules Soto, conversou com exclusividade ao Jornal do Comércio para esclarecer a recente polêmica sobre adenúncia parlamentar de possível utilização de maquinário da Secretaria de Obras da Prefeitura de Balneário Piçarras em terreno particular. Jules afirmou que solicitou o equipamento para apoio em projeto de estudo marítimo mundial do veleiro Ammuce, embarcação que representará o Museu – localizado na cidade – e que levará a sigla piçarrense pelos sete mares.
“Não foi um pedido do reitor (Mario Cesar dos Santos). Foi um pedido meu, em ofício”, disse na entrevista realizada na tarde de quinta-feira, 22. Todas suas explicações fazem alusão às denúncias protocoladas no Ministério Púbico Federal (MPF) e Ministério Público Estadual (MP/SC) feitas pelos vereadores do Partido Progressista(PP), Francisco Coradini e Júlio César
Teixeira. Segundo os parlamentares, um caminhão e uma retroescavadeira estavam trabalhando no Estaleiro TWB, em Navegantes, o que, para eles, caracteriza crimes de improbidade administrativa contra o prefeito, Leonel José Martins(PSDB), e crime ambiental, diante do serviço ribeirinho. Os Ministérios já começaram a coletar informações sobre o caso.
“Nesse dia (2 de julho) o veleiro precisava ser colocado na água e tinha uma máquina e perguntei sobre a possibilidade dessa máquina empurrar o veleiro até o local. E aí que entra o funcionário, que foi muito prestativo. Eu liguei pro prefeito (Leonel José Martins) naquele dia pra oficializar esse pedido, fiz um documento inclusive, só que o prefeito estava na França”, disse o professor. “Aí veio esse funcionário e entreguei o ofício na mão dele e ele disse: isso é um trabalho muito rápido. A gente vai lá, faz o serviço e depois eu entrego o ofício pro prefeito”, acrescentou Jules.
Segundo o relato do curador, a rápida disponibilidade da máquina foi concedida em virtude de três motivos: a comemoração dos 50 anos de emancipação de Balneário Piçarras, a inauguração do Museu Oceanográfico da Univali na cidade (o segundo maior do mundo) e a passagem de dezenas de veleiros da Regata Transat Jaques Vabre pela costa do município. Apesar de o caminhão e a retroescavadeira terem ido até o local, o serviço não foi realizado, já que um engenheiro constatou a ausência de um item que proporcionaria mais segurança ao veleiro.
“E aí houve uma série de especulações de que a máquina trabalhou no terreno, deque inclusive causou dano ambiental e que não tem nada a ver. Essa plataforma onde ela (máquina) estava mexendo, essa rampa, é onde está aquele estaleiro para as embarcações”, garante Jules. “Eu trabalho na áreaambiental e aquilo ali é uma rampa de lama de descer embarcações e subir embarcações. Absolutamente sem nenhum problema ambiental. Não houve nenhum crime ambiental e nenhuma alteração do local”, complementa, exemplificando que o veleiro Ammuce pesa 6 toneladas e pela mesma rampa sobem e descem embarcações com até 2 mil toneladas.
“O recado que eu queria dar é que o Museu Oceanográfico está em Piçarras. Eu considero o Museu Oceanográfico um presente epara o estado de Santa Catarina. É o segundo maior museu oceanográfico do mundo e em relação a isso os políticos de Piçarras tem que medir as suas ações em relação a seus impulsos de que o mais importante, do que as suas posições políticas, é o município”, desabafa o professor. Entretanto, sem qualquer tom irônico, Jules observa a denúncia com bons olhos. “Por outro lado, eu fiquei bastante satisfeito de que existe uma fiscalização muito rigorosa em relação à administração pública. Porque nós todos estamos cansados de tanto desvio de dinheiro público e de corrupção. Só que desta vez erraram a mão”.
Para professor, denúncias não têm fundamento
Diante de toda polêmica, que para o professor não passa de um equívoco, Jules salienta a parceira do projeto. “Nesta segunda-feira mesmo (19), esse veleiro foi retirado do local de onde estava (Estaleiro TWB, em Navegantes) e rebocado até um outro estaleiro, onde está sendo colocado o motor. Ele estava sendo rebocado pela Marinha do Brasil, com oficiais da Marinha, que levaram com segurança o veleiro até esse outro local e nem por causa disso houve uma denúncia pública de que a Marinha está gastando dinheiro ou favorecendo alguém, porque não há favorecido como pessoa física”, rebateu.
Jules explicou que a iniciativa é um projeto independente, que tem diversas entidades sem fins lucrativos como parceiros, sendo a Prefeitura de Balneário Piçarras, uma delas. “O que existe é um veleiro oceanográfico(Ammuce) de um projeto totalmente sem fins lucrativos, que tem o apoio da Marinhado Brasil, tem o apoio do Instituto Cultural e tem o apoio da Universidade do Vale do Itajaí. Não envolve recursos onde esses parceiros irão ganhar lucros, pelo contrário, a gente tem auxiliado na medida do possível e como a gente pode”.
A importância do projeto para Balneário Piçarras e região
Município de pouco menos de 20 mil habitantes, Balneário Piçarras entra na rotado turismo de navegação diante da instalação do Museu Oceanográfico, fato que deve ocorrer até o final do ano. O Veleiro Ammuce, na voz de seu capitão, se tornará o embaixador mundial do Museu, segundo Jules. “Esse veleiro vai para Europa no final do ano divulgando o que? A inauguração
do Museu Oceanográfico (instalado em Balneário Piçarras), divulgando a Universidade(curso de oceanografia) e divulgandoo município. Ele vai percorrer os principais museus navais marítimos e oceanográficos do mundo sem cobrar absolutamente nada de Piçarras. Balneário Piçarras não vai pagar nada por isso. Foi uma sugestão que eu fiz, até porque o museu é em Balneário Piçarras.”
“O veleiro oceanográfico, registrado como tal, que tem um capitão registrado – que foi funcionário da Univali, inclusive – e que concordou em ceder o veleiro e participar desse projeto. A ideia é que esse veleiro preste serviços de pesquisa e de divulgação do programa de mentalidade marítima pelo mundo, porque é uma tradição dos museus oceanográficos terem o seu meio flutuante, terem seu arco de pesquisa”, completa o professor da Univali.
Prefeitura abre sindicância para investigar todo o caso
De acordo com a secretária de Administração e Fazenda da Prefeitura de Balneário Piçarras, Ana Lúcia Wilbert, uma sindicância foi instaurada para avaliar o que realmente aconteceu e qual o envolvimento de três funcionários na Secretaria de Obras. “Já fomos notificados pelo Ministério Público Federal (MPF) e por isso instauramos a sindicância”, explica Ana Lúcia.
Uma comissão de funcionários públicos foi formada para apurartodos os fatos e emitir parecer final sobre a questão. Segundo o prefeito em exercício, Flávio Tironi (PSD),o motorista do caminhão e o operador da máquina estão afastados das funções, enquanto que o funcionário que autorizou a utilização do maquinário foi exonerado. O Ministério Público Federal (MPF) e o Estadual (MP/SC) já iniciaram o processo de coleta de informações e ainda não se manifestaram oficialmente quanto à aceitação das representantes feitas pelos vereadores Francisco e Júlio.





