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segunda-feira 27 de maio de 2024


Artigo | A Era dos Autodidatas do Nada: reflexões sobre opinião e conhecimento na internet

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“As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. O prêmio Nobel de Literatura e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016) cunhou a frase durante um evento na Itália, em 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura. No mesmo ano, Eco lançou seu último romance, chamado Número Zero, uma ficção sobre jornalismo, a informação do século XXI e a internet, esse campo de batalha das ideias, das notícias e das mentiras.

Ele parecia muito incomodado com as mentiras que circulavam no mundo digital. Para Eco, controlar o que aparece na rede era (ainda o é) imprescindível e uma tarefa que deveria ser tutelada pelos jornais tradicionais, estruturas que prezam pela pluralidade de ideias e opiniões e, na maioria dos casos, abertas ao contraponto.

Eco chegou a dizer que os imbecis, antes, falavam apenas em bares, “depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Eco defendia que a TV havia alçado o idiota da aldeia em um patamar no qual ele se sentia superior. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade, filosofou o filósofo.

O idiota e os imbecis de Eco agem como impositores de verdades absolutas a partir de um não-conhecimento ou de um conhecimento que flutua na superfície. Um exemplo prático foram os “debates” em torno das vacinas contra o covid-19. Todos nós nos deparamos em algum momento com “especialistas” convictos a respeito de vacinas, métodos e estudos. Passaram a versar sobre temas e assuntos os quais nunca haviam tido conhecimento prévio, ou seja, quanto mais ignorantes em determinado tópico, mais confiantes as pessoas se sentiam.

“Ora, veja bem, num mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, você não concordaria que há muitos imbecis? Não estou falando ofensivamente quanto ao caráter das pessoas. O sujeito pode ser um excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende”, disse Eco, na mesma entrevista de 2015.

“Para o indivíduo deste universo o que vale é a radicalização de discursos em detrimento da compreensão e do debate”

O alcance do universo digital e sobretudo a onipresença das redes sociais em nosso cotidiano propiciaram a emergência de um fenômeno inédito, a criação de um ambiente virtual, autêntico ecossistema de desinformação – a midiosfera extremista. A frase é do professor João Cesar de Castro Rocha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Para o indivíduo deste universo o que vale é a radicalização de discursos em detrimento da compreensão e do debate. Novamente, lembro dos leigos em ciências epidemiológicas que garantiam saber a fórmula precisa para o fim da pandemia de covid-19. Para esses leigos, não há porta aberta e nem a mínima chance de diálogo franco de ideias, contraposições, argumentos ou contra-argumentos. No microcosmos de certezas sobre o nada, somos invadidos por conceitos deturpados de temas mais do que testados e estudados.

É um contrassenso que pessoas com pouquíssimo conhecimento se sintam tão à vontade e confiantes para manifestar opiniões das mais diferentes áreas, sem qualquer rigor investigativo. Na midiosfera extremista, alavancada pelo ritmo desenfreado de algoritmos ávidos por curtidas, o que vale é a crescente e preocupante agressividade do emissor.

Como diz o professor Rocha, “é uma rematada caricatura imaginada por pessoas de repertório limitado e informação wikipédica. São os autodidatas do nada, enciclopedistas do vazio, malabaristas sem trapézio”.

RAFFAEL DO PRADO
RAFFAEL DO PRADO
Jornalista e mestrando de Comunicação Digital do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em Brasília.

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