Leonel Martins (PSDB) encerra à meia noite do próximo dia 31 de dezembro seu terceiro mandato como prefeito municipal de Balneário Piçarras. Prefeito nas gestões 2005/2008 e 2013/2016, ele observa ter feito sua gestão de maior “paciência, muita resignação, planejamento e maturidade”. Ao longo de quase uma hora de entrevista, em um gabinete que já espera pelo próximo gestor, Leonel afirmou tomou as decisões administrativas não para agradar o imediatismo, mas para colher os frutos dos investimentos públicos canalizados em Saúde e Educação ao “longo de 12 anos, 15 anos, uma nova cidade”.
JC – Prefeito, você chega ao final de seu governo. Foram oito anos de uma gestão de continuidade. Qual é a análise que o senhor faz dessa sua terceira passagem pela principal cadeira do município?
Leonel: Esse meu terceiro mandato eu penso que foi coroado com a experiência que eu adquiri nos dois primeiros mandatos. Administração pública requer paciência, muita resignação, planejamento e maturidade, mas, especialmente, planejamento – porque gestão pública se faz para colher os frutos em médio a longo prazo, e foi isso que implantamos. Lá na frente, os frutos serão colhidos. Você toma decisões que, muitas vezes, não agradam muito bem a população, mas que são decisões que visam a melhoria da qualidade de vida da população, da mobilidade urbana do município, da Educação, da Saúde. Então, esse terceiro mandato me possibilitou ter muito mais tranquilidade e amadurecimento para tomar decisões que viessem a desenvolver ainda mais a nossa cidade.
JC – O senhor então define o termo “Planejamento” como a palavra chave desse terceiro mandato?
Leonel: Sem dúvidas. Graças a uma equipe extremamente qualificada – porque não se faz nada sozinho, um prefeito que pensa assim não terá sucesso – conseguimos dar visibilidade à cidade e planejá-la para o futuro. A cidade cresceu em termos de população e economia, é visível, graças justamente à forma como administramos ela.
JC – Ao longo dos últimos 8 anos, Educação e Saúde foram a base de seu governo e dos investimentos públicos. Quais foram os objetivos com essa linha administrativa?
Leonel: Você só muda uma sociedade com a melhoria da Educação. É a partir da Educação que a população também tem maior consciência sobre os cuidados preventivos com a saúde e quando isso ocorrer nós invertemos a situação de saúde curativa, para saúde preventiva. Um povo com educação tem mais chances de prosperar na vida e foi isso que nós almejamos: garantir o direito de crescimento da nossa gente. Inicialmente tivemos que dar mais ênfase na Saúde porque havia uma demanda, o povo pedia mais saúde. Mas, se a filosofia educacional for mantida, em breve teremos essa lógica de investimentos invertida. Eu optei por pavimentar vidas com a Educação, mesmo sendo criticado muitas vezes. Alguém tinha quer dar esse pontapé inicial, mesmo sabendo que muitas pessoas valorizam mais o calçamento do que a Educação, mas nessa linha eu não faria nada de diferente.
JC – Na sua visão, quais os desafios que os próximos gestores terão com essas áreas?
Leonel: Balneário Piçarras cresceu muito e as demandas, também. Hoje nós contamos, aproximadamente, com 6 mil alunos da rede escolar. Eu acredito, não posso apontar o planejamento do próximo governo, mas eu – se ainda fosse um governo do PSDB/PSD – apostaria na continuidade dos investimentos em Saúde e Educação. E aí sim, nós teríamos ao longo de 12 anos, 15 anos, uma nova cidade. Lógico que cada governo tem as suas prioridades, mas eu torço muito para que o novo governo olhe com carinho para as nossas crianças e nossa população.
JC – Quais ações o senhor tinha em mente e não conseguiu concretizar para os setores de Educação e Saúde?
Leonel: Eu saio um pouco frustrado porque nós tínhamos um projeto de construir uma Escola Técnica, para que nossas crianças saíssem do ensino fundamental e partissem para uma qualificação técnica. O grande problema do Brasil hoje é você dotar a população de uma profissão. Na área da Saúde, a ideia – e nós já tínhamos o pré-projeto e o terreno – para construir um Centro de Diagnóstico por Imagem, onde a pessoa passaria por exames e sairia com o diagnóstico e encaminhamento para tratamento.
JC – Como foi ser o gestor de uma cidade em um momento mundial de pandemia? Acredita que o município conseguiu dar a resposta e a atenção necessária à sua população?
Leonel: Foi muito difícil. A maioria dos projetos travaram, principalmente na Educação. Na área de infraestrutura, obras que tínhamos recursos de financiamento tiveram sua análise prorrogada por conta da situação de instabilidade econômica e isso acabou gerando uma demora para que começássemos as obras. Nosso planejamento é para estarmos com todas as obras concluídas. Em termo de resposta ao Covid-19, acredito que oferecemos à nossa população uma resposta excelente. Temos um Centro de Triagem específico para suspeitas de coronavírus que atende 24h por dia, os sete dias da semana – além de possuirmos um dos mais altos índices de testagem da doença. Tudo que estava ao nosso alcance, foi feito.
JC – Em termos de infraestrutura urbana, as obras de pavimentação de ruas ficaram em segundo plano no seu governo. Por quê?
Leonel: Nós temos obras de infraestrutura que o município precisar arcar – como abertura de ruas e avenidas, construção de pontes, requalificação de vias essências que estão a mobilidade prejudicada. São obras que fazem a cidade crescer. Eu entendo que nós fizemos um grande trabalho em obras de infraestrutura, sim. A questão da pavimentação, que a população cobra muito dos governos, eu acho que ela tem que ser compartilhada com a população, afinal de contas, todos ganham: ganha o cidadão com o benefício da pavimentação e a valorização do seu imóvel e ganha o munícipio que deixa de precisar fazer a manutenção periódica naquela rua, sem contar a questão da saúde pública. Eu vejo que a grande obra de infraestrutura do nosso governo foi a captação e o tratamento do esgoto, que por excelência, é saúde pública. A cada R$ 1 que você investe em tratamento de esgoto, você economiza R$ 4 na Saúde do município. Essa é a maior obra. Infelizmente, muitas pessoas não têm essa consciência. É uma obra que é enterrada, uma obra que não dá voto. O que dá voto é pavimentação. Eu, entre voto ou fazer uma administração voltada pro bem da população, eu prefiro primeiro olhar a população do que uma rua individualmente. Prefiro obras que contemplem a população do que pavimentar uma rua para satisfazer uma, ou duas pessoas.
JC – Atualmente, seu Governo vem investindo em obras de prolongamento do Trecho Norte da Orla, requalificação da Avenida Getúlio Vargas e na nova ponte sobre o Rio Piçarras. O que pensa com essas ações?
Leonel: O que nós pensamos com essas obras? A nossa cidade passa por um crescimento muito grande e ela precisa se apresentar cada dia melhor, ela precisa ser mais atrativa para o investidor e gerar orgulho em seu morador. O investidor vindo à cidade, gera emprego e renda, o comércio é quem cresce. Nos últimos quatro, cinco anos, Balneário Piçarras teve um índice de desenvolvimento muito grande. É uma cidade que se destacou na região e que atraiu muitas empresas da construção civil, muitas. Esse é o caminho para que a cidade consiga ser autossustentável, ter sua receita elevada e a administração municipal consiga promover investimentos em outras regiões de forma equiparada. O município ainda está licitando a reurbanização do Trecho Sul da orla. Vamos deixar tudo pronto: empresa licitada e recursos em caixa para executar a obra. Caberá ao próximo governo decidir pela sua execução.
JC – A construção da ponte é uma das que mais recebe críticas da população. O senhor considera que elas são merecidas?
Leonel: Não considero. Nesse verão, nós poderíamos ter uma ponte interditada pela justiça, como em Barra Velha. A ponte sobre o Rio Piçarras podia ruir de uma hora para outra. Nós temos laudos técnicos que atestam isso. Quando optamos por fazer essa ponte, garantimos a segurança da população e a possibilidade de crescimento econômico de diversos setores, como a pesca e o turismo náutico. Ambos são cruciais para o desenvolvimento, especialmente de uma cidade do litoral. É uma obra fundamental. O projeto da ponte não foi desenvolvido pela Prefeitura. A sociedade organizada – através das CDL’s de Balneário Piçarras e Penha em reuniões com vários empresários – elaboraram o projeto. O nosso setor de engenharia analisou e entendeu que era interessante para Balneário Piçarras e assim o executamos. É um projeto da sociedade organizada, não foi o prefeito Leonel, nem o departamento de engenharia da Prefeitura. É uma ponte que tem a visão da sociedade organizada para o desenvolvimento. Executamos porque achamos interessante.
JC – Em oito anos de mandato, quais ações o senhor destaca na sua gestão?
Leonel: Meu maior orgulho são os investimentos em Educação e Saúde. Nós implantamos a escala de atendimento 24h todos os dias da semana no Pronto Atendimento, criamos o Centro Integrado de Reabilitação, a Farmácia Natural com hortas fitoterápicas em todas as UBS’s, ampliação de toda a equipe de médicos e especialistas e a criação de dois polos de Academia da Saúde. Na Educação, obtemos qualidade de ensino privado, com a parceria com SENAI, com as apostilas da Editora Positivo, uniforme gratuito entre outras ações. Nós temos ainda o contraturno esportivo, parceria da Educação e Esportes, que atende mais de 1.600 crianças em 16 modalidades.
JC – Acredita que conseguiu deixar um legado, seja em termos de obras, quanto em filosofia administrativa?
Leonel: Acredito que sim. Nós tivemos avanços em todas as áreas da cidade e isso precisa ser mantido. Nossas ações estratégicas elevaram a visibilidade da cidade. Na questão da filosofia administrativa, eu posso te dizer que eu sou muito grato à toda nossa equipe administrativa. O prefeito sozinho não faz nada. Se você não tiver uma equipe afinada para tocar uma administração pública, você não chega a lugar algum. Você precisa saber delegar e para quem delegar. Estamos com 8 anos de governo sem nunca ter tido uma única ação de investigação sobre mal uso de recursos públicos, sobre desvio de recursos públicos, sobre desvio de finalidade da administração. Isso é muito orgulhoso para Balneário Piçarras. Eu saio da Prefeitura com o sentimento de dever cumprido.
JC – Ao final desses oito anos, como o senhor acredita que deixou Balneário Piçarras?
Leonel: É uma cidade pronta para continuar se desenvolvendo. Nós implantamos uma filosofia de visibilidade, de progresso e que agora é realmente a bola da vez do crescimento estadual. Os números que temos comprovam isso.
JC – Sua gestão foi marcada por uma filosofia mais austera no sentido tributário, fator que elevou a arrecadação do IPTU de R$ 7,7 milhões (2012) para R$ 28 milhões (2020) e do ITBI de R$ 1,2 milhão (2012) para R$ 14 milhões (R$ 2020). O desgaste político compensou na aplicação dessa ação?
Leonel: Essa é a saúde financeira que estamos deixando para a próxima gestão. Sem esses valores a cidade não faz nada. Nossa cidade tem tudo para crescer por conta justamente disso, desde que os recursos, obviamente, sejam reaplicados corretamente. Eu não posso sair por aí dizendo que vou baixar o IPTU. Um gestor pode ser punido por isso: chama-se renúncia de receita. Foi por essa filosofia que a nossa cidade cresceu.
JC – Qual a situação financeira que o senhor vai deixar a Prefeitura para o novo prefeito?
Leonel: Estamos deixando a cidade com uma vida financeira saudável, com uma bela arrecadação – e precisa se cuidar disso. Deixaremos um volume significativo de recursos em caixa – especialmente no Fundo de Manutenção da Praia (Fumpra). Mais de R$ 10 milhões estarão nos caixas e mais um saldo do excesso de arrecadação que se deu esse ano. O prefeito que assume a Prefeitura, se tiver uma equipe boa de governo – e eu acredito que terá -, é um empresário e eu tenho certeza que saberá gerir. Para 2021, Balneário Piçarras tem um orçamento acima de R$ 150 milhões, muito acima de muitos municípios com uma população bem maior. O novo gestor receberá a Prefeitura saneada e com uma bela arrecadação, já para iniciar o governo, se quiser, com obras de infraestrutura. Deixamos também duas ambulâncias zero quilômetro, recém adquiridas, ressaltando nosso compromisso com a sociedade.
JC – Qual mensagem o senhor pode deixar para a futura administração?
Leonel: Que o futuro gestor siga o caminho do bom relacionamento, do relacionamento amistoso com a população, que se guarde as bandeiras políticas, que não se olhe para as pessoas enxergando siglas partidárias, que se preocupe com a sua gestão e que esqueça do passado. Porque aonde se viu gestores que se preocuparam com a gestão passada, criticando a gestão anterior, esqueceram de administrar a cidade. Tenho certeza de que o novo gestor estará comprometido com a cidade. A população espera dele um bom governo, um governo austero, um governo que saiba investir em obras que favoreçam a população – especialmente em Saúde e Educação. A população exige que o município não retroceda.
JC – Aos 70 anos, o senhor se aposenta da vida política?
Leonel: Não posso dizer que é o fim da minha carreira política. Sou apaixonado por política, apaixonado pela minha cidade. Enquanto eu tiver forças, jamais eu direi que estarei afastado definitivamente da política. Não pretendo retornar como candidato, mas se for de interesse da população, estarei disponível.
JC – Quais são seus planos pessoais e profissionais a partir de 1º de janeiro?
Leonel: Eu retorno para minha atividade original, sou corretor de imóveis. Eu tinha uma empresa no ramo civil, que agora é dos meus filhos já há 15 anos, devo retornar para ajuda-los, contribuindo com meu conhecimento na área empresarial.
JC: E à população, qual sua mensagem final como gestor público?
Leonel: Quero dizer que sou muito grato à Deus por todas as amizades que conquistei, sou muito grato pela população de Balneário Piçarras, que reconheceu esses 8 anos de governo. Muito grato por tudo que aconteceu na minha vida, por ter tido saúde, ter disposição e ter formado uma gama de amigos enorme. Sei que não consigo agradar a todos, mas saio da gestão com a consciência muito tranquila e grato a Deus por tudo que ocorreu.





